Um estudo conduzido por pesquisadores brasileiros aponta que a ampla diversidade genética da população do país pode estar diretamente associada a uma vida mais longa e com melhor qualidade. A pesquisa foi publicada nesta terça-feira (6) no periódico científico Genomic Psychiatry e destaca a miscigenação como um possível fator de proteção para a longevidade.

O trabalho integra as investigações do Genoma USP, centro vinculado à Universidade de São Paulo, e teve como ponto de partida a análise de três idosos com mais de 110 anos que conseguiram se recuperar da Covid-19. A partir desses casos, os cientistas ampliaram o estudo e avaliaram mais de 160 centenários brasileiros, entre eles dois supercentenários — pessoas que ultrapassam os 110 anos de idade.
Entre os participantes estava a freira Inah Canabarro Lucas, considerada a mulher mais longeva do mundo até sua morte, em abril de 2025, aos 116 anos. Os voluntários passaram por exames de sangue e análises genéticas detalhadas, permitindo aos pesquisadores identificar características únicas relacionadas à resistência imunológica e ao envelhecimento saudável.
De acordo com os cientistas, muitos dos idosos analisados viveram em regiões com menor acesso a serviços de saúde ao longo da vida. Esse contexto, segundo o estudo, amplia o valor científico da pesquisa, pois possibilita a identificação de mecanismos naturais de resiliência que vão além das intervenções médicas tradicionais.
Uma das principais conclusões do artigo é que a diversidade genética brasileira — descrita como a mais rica do mundo — resulta da mistura de ancestrais europeus, africanos, indígenas e asiáticos, o que pode favorecer a presença de variantes genéticas associadas à longevidade. A pesquisa identificou mais de oito bilhões de variantes genéticas inéditas, que não constam em bancos de dados internacionais.
Essas variações permitem a identificação de chamados “genes protetores”, ausentes em populações geneticamente mais homogêneas, como as da Europa e da América do Norte. Segundo o pesquisador Mateus Vidigal de Castro, primeiro autor do estudo, essa diversidade ainda é pouco explorada pela ciência global, especialmente nas pesquisas sobre envelhecimento extremo.
Casos familiares analisados pelo Genoma USP também reforçam a influência genética na longevidade. Um dos exemplos citados envolve uma família brasileira com uma mulher de 110 anos e sobrinhas que chegaram aos 106 e 110 anos. Os dados indicam que irmãos de centenários têm de cinco a 17 vezes mais chances de alcançar os 100 anos de idade.
O estudo ainda observou que os centenários que sobreviveram à Covid-19 apresentaram respostas imunológicas robustas, com altos níveis de anticorpos e proteínas ligadas à imunidade inata, sugerindo particularidades no sistema imunológico desses indivíduos.
Para os pesquisadores, os resultados podem contribuir para o avanço de estratégias voltadas ao envelhecimento saudável e ao desenvolvimento de abordagens mais inclusivas na medicina. A coordenadora do Genoma USP, Mayana Zatz, defende que consórcios internacionais ampliem seus estudos para incluir populações miscigenadas, como a brasileira, a fim de promover maior equidade e aprofundar o conhecimento científico sobre a longevidade humana.
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