O avanço das mudanças climáticas deve provocar aumento das temperaturas e alterações no regime de chuvas no Ceará ao longo das próximas décadas, segundo projeções apresentadas durante o lançamento do Inventário de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Estado. Os impactos incluem mais dias de calor extremo, prolongamento de períodos secos e maior ocorrência de eventos climáticos intensos.
As estimativas foram detalhadas pelo físico Alexandre Costa, professor da Universidade Estadual do Ceará, em evento promovido pela Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Ceará, na última quarta-feira (11/02). De acordo com o pesquisador, o Ceará tende a aquecer em ritmo acelerado por estar inserido em áreas classificadas como “terras secas”, regiões onde a baixa umidade do solo reduz a evaporação e favorece o aumento direto da temperatura da superfície.

Mesmo em cenários considerados mais moderados, o Estado poderá registrar até 57 dias adicionais por ano com temperaturas superiores a 35°C. Em cenários de altas emissões, esse número pode chegar a 202 dias anuais.
As projeções climáticas indicam que, até o fim do século, a temperatura média estadual pode ultrapassar 30°C em grande parte do território caso o uso de combustíveis fósseis permaneça elevado. Áreas serranas, atualmente mais amenas, também devem apresentar aquecimento relevante, com médias superiores a 27°C.
Além do calor, mudanças no comportamento das chuvas são apontadas como um dos principais desafios. Embora o volume anual total não apresente redução expressiva, estimada em cerca de 3% no cenário mais crítico, a distribuição das precipitações tende a se tornar mais irregular. Modelagens indicam aumento das chuvas na faixa norte e redução no sul do Ceará, região estratégica para o armazenamento hídrico, o que pode ampliar a dependência do abastecimento vindo da Transposição do Rio São Francisco.
Também está prevista intensificação das chuvas severas, com aumento entre 6% e 18% na intensidade dos eventos extremos. Segundo o especialista, esse cenário eleva riscos de erosão do solo, perda de nutrientes agrícolas e danos a estruturas de armazenamento de água. Paralelamente, a estação seca pode se prolongar em até 25 dias.

Os impactos regionais estão associados ao avanço do aquecimento global provocado pela emissão de gases de efeito estufa decorrentes de atividades humanas. Entre os principais responsáveis estão o dióxido de carbono, que é liberado pela queima de carvão, petróleo e gás natural, além do metano e do óxido nitroso, ligados principalmente à agropecuária.
O pesquisador destacou que o planeta se aproxima do limite de 1,5°C de aquecimento médio estabelecido no Acordo de Paris. Em 2025, a elevação global já alcançou 1,44°C. Como consequência, eventos extremos se tornaram mais frequentes, incluindo ondas de calor que atualmente ocorrem quase nove vezes mais do que em condições climáticas naturais.
Segundo o pesquisador, sem redução significativa das emissões, o aquecimento global poderá atingir até 5°C nos próximos séculos. Este cenário comprometeria a produção agrícola e tornaria algumas regiões do planeta inadequadas para ocupação humana.
O especialista defende a adoção de políticas públicas voltadas à redução das emissões, ampliação do transporte coletivo, eletrificação da mobilidade e recomposição florestal. Além disso, Alexandre também pontua a importância do fortalecimento da produção científica regional para subsidiar estratégias de adaptação climática no semiárido.
Acompanhe mais notícias da Rede ANC através do Instagram, Spotify ou da Rádio ANC.


