Comunidades rurais implantadas no Ceará a partir do reassentamento de famílias afetadas pelas obras do Projeto de Integração do Rio São Francisco apresentam registro de doenças tropicais negligenciadas e circulação de insetos vetores, mesmo dispondo de infraestrutura considerada adequada. A constatação é de um estudo desenvolvido pela Universidade Federal do Ceará (UFC), que identificou casos de esquistossomose e a presença de barbeiros em vilas produtivas rurais localizadas na região do Cariri.
A pesquisa avaliou moradores reassentados nos municípios de Jati, Brejo Santo e Mauriti, áreas que receberam mais de 200 famílias transferidas em decorrência da transposição do rio São Francisco. O levantamento foi realizado entre 2019 e 2020 e teve os resultados publicados na revista científica Epidemiologia e Serviços de Saúde, vinculada ao Ministério da Saúde.

Entre os 234 moradores submetidos a exames para detecção de esquistossomose, o método parasitológico tradicional identificou menos de 1% de casos positivos. Já o teste de urina, utilizado para detectar proteínas do parasita, apontou taxa de positividade de 11,5%. O maior índice foi registrado na Vila de Descanso, em Mauriti, onde 10 dos 68 participantes examinados tiveram resultado positivo, correspondendo a 14,71%.
Para investigação da doença de Chagas, foram analisadas 368 amostras de sangue de residentes das comunidades, seguindo protocolos nacionais de diagnóstico e vigilância epidemiológica. A prevalência estimada foi de 0,3%. Paralelamente, pesquisadores realizaram inspeções em 245 unidades domiciliares e identificaram a presença de triatomíneos, conhecidos como barbeiros, em quatro residências. Nenhum dos insetos analisados apresentou infecção pelo parasita Trypanosoma cruzi, agente causador da doença.
Apesar da ausência de vetores infectados, o estudo destaca que a presença dos insetos dentro e no entorno das moradias mantém a necessidade de monitoramento contínuo nas localidades. “Isso mostra que a infraestrutura, por si só, não elimina o risco. Vulnerabilidade social, acesso limitado aos serviços de saúde e necessidade de vigilância contínua são determinantes importantes”, pontua o farmacêutico José Damião da Silva Filho, doutor em Saúde Pública pela UFC.

A pesquisa incluiu ainda 300 avaliações clínicas voltadas à detecção de hanseníase, realizadas por meio de anamnese e exame dermatoneurológico. Oito moradores com alterações suspeitas foram encaminhados para exames complementares, mas nenhum caso foi confirmado.
Segundo os autores, esquistossomose e doença de Chagas permanecem como endemias nas áreas analisadas, indicando ocorrência frequente e necessidade permanente de vigilância em saúde. O estudo aponta que fatores como dificuldades de acesso aos serviços de saúde, condições socioeconômicas e mudanças ambientais associadas à ocupação de novos territórios contribuem para a manutenção do risco epidemiológico, mesmo em comunidades planejadas com abastecimento de água e saneamento básico.
Orientações
Entre as recomendações estão o fortalecimento das ações de vigilância epidemiológica, capacitação das equipes de saúde para identificação e coleta de insetos vetores e ampliação das orientações preventivas à população. As medidas incluem manutenção adequada das residências e eliminação de possíveis abrigos para barbeiros.
Os pesquisadores também alertam para possíveis impactos ambientais decorrentes da chegada das águas do Rio São Francisco ao semiárido cearense, incluindo a introdução de caramujos do gênero Biomphalaria, hospedeiros intermediários do parasita responsável pela esquistossomose. A equipe pretende realizar novo acompanhamento nas mesmas comunidades para avaliar eventuais mudanças na incidência das doenças e subsidiar políticas públicas voltadas à vigilância ambiental e epidemiológica.
“Precisamos olhar o território numa visão de ‘saúde única’, onde o homem, os animais e o ambiente são vistos de maneira integrada e que essa visão possa nortear as políticas públicas de saúde”, destaca Fernando.
Estudo
A pesquisa foi financiada pelo Programa de Pesquisa para o Sistema Único de Saúde e contou com a participação de técnicos da Secretaria da Saúde do Ceará, secretarias municipais e equipes responsáveis pelo controle de endemias e vigilância de vetores.
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