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Setor produtivo pede debate técnico sobre jornada de trabalho

Mais de 90 entidades do setor produtivo, sob liderança da Confederação Nacional da Indústria (CNI), tornaram público nesta terça-feira (03/03) um manifesto em defesa da modernização da jornada de trabalho no Brasil. O documento reúne representantes da indústria, agronegócio, comércio, serviços e transportes e explicita posicionamento contrário a propostas legislativas que tratam da redução da escala de trabalho sem discussão técnica aprofundada.

No entendimento das organizações signatárias, a pauta é legítima e envolve diretamente o bem-estar dos trabalhadores e o funcionamento da economia. Ainda assim, o texto sustenta que qualquer mudança precisa considerar efeitos sobre competitividade, produtividade e sobre o nível de formalização do mercado de trabalho brasileiro.

Setor produtivo pede debate técnico sobre jornada de trabalho
Foto: Tiago Stille

Como diretrizes para o debate, o manifesto elenca quatro princípios considerados essenciais:

  • Preservação do emprego formal; adoção da produtividade como fundamento da sustentabilidade econômica e social;
  • Diferenciação por setor com fortalecimento da negociação coletiva;
  • Aprofundamento técnico da discussão, com governança baseada no diálogo social.

Para isso, dados oficiais são apresentados para dimensionar o alcance do tema. Informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que o país registrava, em 2025, 38,9 milhões de trabalhadores com carteira assinada no setor privado. Já o Ministério do Trabalho e Emprego apontou estoque de 48,45 milhões de vínculos empregatícios em dezembro do mesmo ano, conforme o Novo Caged. Apesar de metodologias distintas, as bases convergem ao mostrar a parcela de trabalhadores formais potencialmente impactada por alterações na jornada.

Relatos de empresas também integram o documento. Pesquisas recentes mostram que parte significativa das companhias enfrenta dificuldades para preencher vagas e reter profissionais, enquanto entidades setoriais apontam escassez de mão de obra qualificada como obstáculo recorrente.

Setor produtivo pede debate técnico sobre jornada de trabalho
Foto: Vecteezy

Segundo projeções do Mapa do Trabalho Industrial 2025–2027, elaborado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) em parceria com a CNI, há uma estimativa acerca da necessidade de qualificar aproximadamente 14 milhões de pessoas no período. Paralelamente, segmentos como o varejo supermercadista relatam volume elevado de postos em aberto, superior a 350 mil vagas em recorte recente.

No setor de transportes, o cenário descrito é semelhante. Levantamentos apontam que mais de 65% das empresas de transporte de cargas e mais de 53% das companhias de transporte urbano de passageiros já registram falta de motoristas, o que, de acordo com o posicionamento divulgado, pode comprometer a regularidade dos serviços.

Conforme o manifesto, países que reduziram o número de horas trabalhadas passaram por processos históricos associados a ganhos consistentes de produtividade. Quando há aumento da produção por hora, argumentam as entidades, se torna possível reduzir a jornada preservando renda e estabilidade de preços.

Sem esse equilíbrio, entretanto, o texto alerta para potenciais efeitos adversos. “No entanto, quando a mudança ocorre sem esse equilíbrio, o resultado pode ser o aumento de custos, a redução de contratações formais e/ou o repasse de preços para o consumidor. Nenhum desses cenários favorece o país, seus trabalhadores e suas empresas. Nesse contexto, o Brasil precisa acelerar qualificação, ampliar oportunidades e viabilizar adoção de tecnologia e inovação, sustentando produtividade”, diz um trecho do documento.

Setor produtivo pede debate técnico sobre jornada de trabalho
Foto: Divulgação/Agência de Notícias da Indústria

A legislação trabalhista vigente também é mencionada. Segundo o pronunciamento, o ordenamento jurídico já prevê instrumentos de ajuste por meio da negociação coletiva, ampliados após a reforma trabalhista, permitindo acomodar diferenças entre setores, portes empresariais, atividades contínuas, serviços essenciais e demandas sazonais.

Entre os pontos destacados, está ainda a preocupação com a informalidade, que atinge cerca de 40% da população economicamente ativa. Alertas sobre possíveis reflexos nos preços de bens e serviços essenciais também constam no manifesto. Alimentação, medicamentos e transporte são citados como exemplos de áreas que podem sofrer impactos caso mudanças estruturais não sejam acompanhadas de análise técnica rigorosa, sob risco de redução do poder de compra e ampliação da informalidade.

O manifesto defende também que eventuais mudanças na jornada considerem as especificidades de cada setor e atividade econômica, permitindo ajustes diferenciados conforme a realidade produtiva. Nesse sentido, o documento ressalta a importância da negociação coletiva como instrumento para adequar escalas, turnos e limites de trabalho ao contexto de cada segmento e região.

“Nesse sentido, considera-se recomendável que o aprofundamento desta pauta ocorra fora do ambiente de disputas eleitorais, em momento mais propício à construção de consensos duradouros e de soluções equilibradas, evitando que decisões pressionadas possam comprometer a qualidade de políticas públicas e seus efeitos sobre o país”, conclui o texto.

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