Uma em cada cinco crianças e adolescentes brasileiros entre 12 e 17 anos foi vítima, em apenas um ano, de exploração e/ou abuso sexual facilitados por tecnologia. O percentual de 19% representa cerca de três milhões de meninas e meninos atingidos por violência sexual no ambiente digital.
Os dados constam no relatório “Disrupting Harm in Brazil: Enfrentando a violência sexual contra crianças facilitada pela tecnologia”. O material foi divulgado nesta quarta-feira (04/03) pelo UNICEF Innocenti, em parceria com a ECPAT International e a INTERPOL, com financiamento da Safe Online.
O estudo define como abuso e exploração sexual “facilitados” pela tecnologia as situações em que ferramentas digitais são utilizadas em qualquer etapa do crime, seja para aliciar, extorquir, produzir, armazenar ou disseminar material de violência sexual. Essas ocorrências podem acontecer exclusivamente no ambiente virtual, combinar interações online e presenciais ou envolver abuso físico com registro e compartilhamento de imagens por meios digitais.

A publicação reúne evidências sobre a forma como redes sociais, jogos online e aplicativos de mensagens são utilizados para viabilizar essas práticas, apontando padrões, riscos e desafios para prevenção e enfrentamento. Entre as ocorrências mais relatadas, a exposição a conteúdo sexual não solicitado aparece como a forma mais frequente de violência, atingindo 14% dos entrevistados. Em 49% dos casos, o agressor era alguém conhecido da vítima e 34% das crianças e adolescentes afirmaram não ter contado o ocorrido a ninguém.
“As conclusões, baseadas em evidências, estão fornecendo às forças de segurança recomendações práticas e apoio direcionado. Esses esforços contribuem para a implementação, pelo Brasil, das resoluções globais da INTERPOL sobre crimes contra crianças, reforçando o compromisso do país com a proteção de crianças na era digital”, comenta Mark Beavan, Chefe da Unidade de Crimes contra Crianças da INTERPOL.
Dinâmica dos casos
Do total de relatos coletados, 66% indicam que a violência ocorreu por canais online. Redes sociais e aplicativos de mensagens concentraram 64% das ocorrências, enquanto jogos online corresponderam a 12%. Entre as plataformas mencionadas, Instagram (59%) e WhatsApp (51%) aparecem como os aplicativos mais utilizados por agressores.
Embora 49% dos casos envolva pessoas conhecidas, 26% das vítimas apontaram agressores desconhecidos e 25% não souberam ou não quiseram identificar o responsável. Entre aqueles que conheciam o agressor, 52% relataram que o primeiro contato ocorreu no ambiente virtual. Também houve registros de aproximações iniciadas na escola (27%), na residência da própria vítima (11%) e em espaços de prática esportiva (2%).

A especialista em pesquisa do escritório de Estratégia e Evidência do UNICEF Innocenti, Marium Saeed, destaca que as tecnologias digitais não criam necessariamente novas formas de violência, mas ampliam e facilitam práticas já existentes. “O relatório pede uma ação coordenada entre governo, setor privado, escolas, famílias e comunidades para que todas as crianças no Brasil possam crescer livres da violência, tanto online quanto presencialmente”, pontua.
Inteligência artificial
O estudo também aponta o avanço do uso de ferramentas de inteligência artificial generativa na prática de crimes. Em um intervalo de 12 meses, 3% das crianças e adolescentes entrevistados afirmaram que alguém utilizou IA para criar imagens ou vídeos de conteúdo sexual com sua aparência. A conclusão dialoga com o relatório “Abuso de deepfake é abuso”, divulgado pelo UNICEF, que classifica a criação e disseminação de conteúdos manipulados como forma de violência sexual.
“O Brasil construiu uma base legal sólida para proteger e cuidar de crianças submetidas à exploração e ao abuso sexual facilitados pela tecnologia. O que a pesquisa revela são lacunas na forma como a lei é implementada. Esperamos que essas evidências criem uma oportunidade para reduzir essa distância, para que cada criança receba a resposta coordenada, centrada na criança, e a justiça que a lei sempre pretendeu”, diz Andrea Varrella, Chefe do Programa Justiça e Direitos da Criança, da ECPAT International.
Perfil das vítimas
A pesquisa não identificou diferenças estatisticamente significativas na incidência de violência por área de residência, situação escolar ou nível de escolaridade dos pais. No entanto, há indícios de que dificuldades econômicas podem ser exploradas por agressores.

Em um ano, 5% das crianças relataram ter recebido ofertas de dinheiro ou presentes em troca de imagens ou vídeos de teor sexual. Outros 3% mencionaram propostas para encontros presenciais com finalidade sexual.
Consequências
Os impactos sobre as vítimas incluem prejuízos à saúde mental, física e emocional, além de efeitos na trajetória escolar. Nesse sentido, medo constante de exposição ou repetição da violência é recorrente. Em 34% dos casos, não houve relato a terceiros. Quando ocorre, a revelação tende a ser feita a amigos, o que aconteceu em 22% das situações.
Entre os motivos para o silêncio estão a falta de informação sobre onde buscar ajuda (22%), constrangimento (21%), medo de não serem acreditados (16%), receio de que outras pessoas descubram (7%) e sentimento de culpa (3%). Em 12% dos casos, a vítima considerou que o episódio não era “grave o suficiente” para denúncia. Já as barreiras ao registro formal incluem desconhecimento sobre como denunciar (18%), ameaças do agressor (17%) e falta de compreensão de que a situação configura crime (15%).
O levantamento indica que vítimas apresentam índices mais elevados de ansiedade, retração social e autoculpa. Além disso, possuem risco mais de cinco vezes maior de automutilação e pensamentos ou tentativas de suicídio.
Recomendações e atuação institucional
O relatório sustenta que prevenir e responder a esse tipo de violência é responsabilidade compartilhada entre governos, Sistema de Justiça, escolas, famílias, empresas de tecnologia e sociedade. Entre as recomendações estão o fortalecimento do Sistema de Garantia de Direitos, padronização de protocolos de atendimento centrados na criança, atualização da legislação diante de tecnologias emergentes e ampliação da cooperação entre plataformas digitais.
No Brasil, o UNICEF atua na proteção contra diferentes formas de violência, com foco em populações vulneráveis, investindo na produção de evidências, apoio técnico a políticas públicas e fortalecimento de serviços como Conselhos Tutelares e escolas.
Metodologia
A pesquisa ouviu 1.029 crianças e adolescentes de 12 a 17 anos e o mesmo número de pais ou responsáveis, em entrevistas domiciliares realizadas entre novembro de 2024 e março de 2025. Também foram ouvidos jovens de 16 a 24 anos que sofreram esse tipo de violência antes dos 18 anos, além de profissionais do Sistema de Justiça e Segurança Pública. O estudo adotou amostragem probabilística em três estágios e alcançou cobertura de 95% do trabalho de campo no país.
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