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CCJ da Câmara aprova PEC que reduz maioridade penal

Foto: Bruno Spada / Câmara dos Deputados

A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou nesta quarta-feira (10) a admissibilidade da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 32/2015, que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos. O parecer favorável à tramitação da matéria foi aprovado por 44 votos a favor e 18 contrários.

A proposta, apresentada em 2015 pelo então deputado federal Gonzaga Patriota (PSB-PE), altera o artigo 228 da Constituição Federal para estabelecer que a maioridade penal será atingida aos 16 anos, idade a partir da qual a pessoa passaria a responder criminalmente pelos seus atos perante a legislação penal comum.

Com a aprovação na CCJ, a matéria avança para uma comissão especial que será criada pelo presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB). Caberá ao colegiado discutir o mérito da proposta, promover audiências públicas, receber sugestões de alteração e elaborar um parecer final antes que o texto seja submetido ao plenário da Casa.

A votação ocorreu após dois dias de intensos debates e tentativas de obstrução por parte de parlamentares contrários à proposta. Na terça-feira (9), a discussão foi interrompida devido ao início das votações no plenário da Câmara e retomada nesta quarta-feira, quando o colegiado concluiu a análise da admissibilidade.

O que muda

A proposta altera um dos dispositivos mais conhecidos da Constituição Federal. Atualmente, o artigo 228 estabelece que menores de 18 anos são penalmente inimputáveis, ficando sujeitos às medidas socioeducativas previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Com a mudança, adolescentes de 16 e 17 anos passariam a responder criminalmente da mesma forma que adultos, ficando sujeitos às sanções previstas no Código Penal e demais legislações penais.

O texto original da PEC também previa mudanças nos direitos políticos, tornando obrigatório o voto aos 16 anos e reduzindo a idade mínima para candidatura a diversos cargos eletivos. Havia previsão, por exemplo, para permitir que jovens de 16 anos disputassem vagas de vereador.

No entanto, o relator da proposta, deputado Coronel Assis (PL-MT), retirou todos os dispositivos relacionados aos direitos políticos e manteve apenas o trecho referente à redução da maioridade penal.

Segundo o parlamentar, as demais alterações tratavam de temas distintos e poderiam comprometer a unidade temática da proposta.

Argumentos favoráveis

Ao apresentar o parecer, Coronel Assis argumentou que a redução da maioridade penal não viola cláusulas pétreas da Constituição nem afronta tratados internacionais assinados pelo Brasil.

Segundo o relator, a definição da idade para responsabilização penal é uma escolha legislativa que pode ser modificada por meio de emenda constitucional.

Parlamentares favoráveis à proposta afirmam que adolescentes de 16 e 17 anos possuem capacidade de compreender as consequências de seus atos e que a legislação atual acaba sendo utilizada por organizações criminosas para recrutar menores de idade para a prática de delitos.

O deputado Lucas Redecker (PSDB-RS) afirmou durante o debate que muitos adolescentes envolvidos em crimes graves se beneficiam da sensação de impunidade decorrente da legislação atual.

Defensores da PEC também sustentam que a mudança pode contribuir para o enfrentamento da violência e do avanço de facções criminosas em diversas regiões do país.

Argumentos contrários

A proposta enfrentou forte resistência de parlamentares da base governista e de partidos de esquerda.

A deputada Erika Kokay (PT-DF) argumentou que a medida representa uma afronta a direitos e garantias fundamentais previstos na Constituição Federal. Segundo ela, adolescentes seriam inseridos em um sistema prisional marcado por superlotação, violência e ausência de condições adequadas de ressocialização.

Já a deputada Talíria Petrone (PSOL-RJ) afirmou que a proposta não apresenta soluções efetivas para os problemas da segurança pública e classificou a iniciativa como uma medida de caráter eleitoral.

Parlamentares contrários também argumentam que a redução da maioridade penal pode fortalecer o recrutamento de adolescentes por organizações criminosas e ampliar a população carcerária sem reduzir os índices de criminalidade.

Outro ponto levantado pelos opositores é que o sistema socioeducativo previsto pelo Estatuto da Criança e do Adolescente já prevê medidas para adolescentes que cometem atos infracionais, incluindo internação em casos graves.

Votação expõe divisão entre governo e oposição

A aprovação da proposta na CCJ também evidenciou a divisão política em torno da redução da maioridade penal. Os votos favoráveis concentraram-se principalmente entre parlamentares do PL, União Brasil, PP, Republicanos, PSD, Podemos, MDB, PSDB, Solidariedade e PRD. Entre os deputados que apoiaram a admissibilidade da PEC estão Bia Kicis (PL-DF), Nikolas Ferreira (PL-MG), Coronel Assis (PL-MT), Mendonça Filho (PL-PE), Júlia Zanatta (PL-SC), Julio Cesar Ribeiro (Republicanos-DF), Domingos Neto (PSD-CE) e Danilo Forte (PP-CE).

Já os votos contrários vieram majoritariamente de parlamentares do PT, PSOL, PCdoB, PSB, PDT, PV, Rede e Avante. Entre os deputados que votaram pela rejeição da proposta estão Erika Kokay (PT-DF), Patrus Ananias (PT-MG), Paulo Teixeira (PT-SP), Sâmia Bomfim (PSOL-SP), Orlando Silva (PCdoB-SP), Lídice da Mata (PSB-BA), Tabata Amaral (PSB-SP) e Túlio Gadêlha (Rede-PE).

No Ceará, os dois integrantes da CCJ que participaram da votação manifestaram apoio à admissibilidade da proposta. Danilo Forte (PP-CE) e Domingos Neto (PSD-CE) votaram favoravelmente ao parecer do relator.

A votação reforçou um cenário já observado em discussões anteriores sobre o tema no Congresso Nacional. Enquanto parlamentares favoráveis defendem que adolescentes de 16 e 17 anos devem responder criminalmente por crimes graves, os opositores argumentam que a mudança não reduz a violência e pode ampliar a população carcerária sem enfrentar as causas estruturais da criminalidade.

E agora?

Apesar da aprovação na CCJ, a proposta ainda tem um longo caminho até uma eventual promulgação.

Após a instalação da comissão especial, o colegiado deverá analisar o mérito da matéria e elaborar um parecer final. Somente depois dessa etapa a PEC poderá ser votada pelo plenário da Câmara.

Por se tratar de uma alteração na Constituição, o texto precisará ser aprovado em dois turnos pelos deputados federais, com o apoio mínimo de 308 parlamentares em cada votação.

Se superar essa etapa, a proposta seguirá para o Senado Federal, onde também precisará ser aprovada em dois turnos, com pelo menos 49 votos favoráveis em cada um deles.

Somente após a aprovação pelas duas Casas do Congresso Nacional a alteração poderá ser promulgada e incorporada à Constituição Federal.

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