
Durante evento de pré-campanha em Tianguá no último final de semana, Ciro Gomes (PSDB) voltou a reconhecer um dos principais desafios de sua caminhada rumo a 2026: a dificuldade de atrair prefeitos para seu projeto político.
O ex-ministro afirmou compreender a dependência dos gestores municipais em relação aos governos estadual e federal, especialmente em um contexto no qual obras, convênios e emendas parlamentares têm peso crescente na administração das cidades. Segundo Ciro, essa é uma realidade histórica da política cearense e deve ser entendida sem simplificações.
Na tentativa de demonstrar que o apoio dos prefeitos não é decisivo por si só, Ciro citou duas eleições emblemáticas da história recente do Ceará: a vitória de Tasso Jereissati (PSDB) sobre Adauto Bezerra (PFL), em 1986, e a de Cid Gomes (PSB) sobre Lúcio Alcântara (PSDB), em 2006.
Mas a história é um pouco mais complexa.
Em 1986, Tasso realmente derrotou o grupo político liderado por Adauto Bezerra, Virgílio Távora e César Cals, conhecido como a “trinca dos coronéis”. No entanto, o cenário já havia mudado significativamente antes da eleição. Gonzaga Mota, eleito governador em 1982 com o apoio desse grupo, rompeu politicamente com seus antigos padrinhos e passou a apoiar o projeto das Mudanças.
Com isso, a máquina estadual deixou de estar ao lado dos coronéis e passou a trabalhar em favor da candidatura de Tasso.
A disputa, portanto, não ocorreu entre um candidato isolado e toda a estrutura de poder do estado. Ao contrário: Tasso chegou à eleição apoiado pelo governador, por setores do PMDB e pelo empresariado organizado em torno do Centro Industrial do Ceará.
O mesmo raciocínio vale para 2006.
Embora Lúcio Alcântara fosse o governador e contasse com ampla influência sobre prefeitos, Cid Gomes não disputou a eleição em posição minoritária. Antes mesmo da campanha, já havia construído uma robusta aliança com PT e PMDB, reunindo dezenas de prefeitos em sua base. Além disso, a relação entre Lúcio e Tasso Jereissati estava profundamente desgastada.
O rompimento entre os dois enfraqueceu a candidatura governista e abriu espaço para a ascensão do grupo liderado pelos irmãos Ferreira Gomes.
Em ambos os casos, houve mais do que simples enfrentamentos entre um candidato e a maioria dos prefeitos. Houve rupturas políticas, rearranjos de poder e a adesão de parcelas importantes das estruturas que sustentavam os governos da época.
Ao recorrer a esses exemplos, Ciro busca sustentar a tese de que é possível vencer uma eleição mesmo sem o apoio da maioria dos prefeitos. Historicamente, isso é verdade. Mas também é verdade que tanto Tasso, em 1986, quanto Cid, em 2006, chegaram às urnas respaldados por alianças amplas e por setores influentes da política cearense.
A questão para 2026 é saber se existe, hoje, uma estrutura política capaz de compensar a enorme diferença de apoios municipais. Afinal, enquanto a oposição tenta construir seu campo político, a base governista reúne praticamente a totalidade dos prefeitos cearenses. E essa é uma realidade que nenhuma comparação histórica consegue ignorar.


