
A Polícia Federal apontou que o senador Ciro Nogueira (PP-PI) recebeu ao menos R$ 6 milhões em pagamentos do empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, entre 2024 e 2025. As informações constam nos autos do processo que apura suposta fraude financeira na atuação do banco e tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro André Mendonça.
Segundo a PF, Vorcaro e Ciro mantinham uma relação marcada pela “convergência de interesses ilícitos” e pela obtenção de vantagens mútuas. Os investigadores afirmam que o ex-banqueiro teria transferido ao senador valores mensais de ao menos R$ 300 mil durante 20 meses, o que elevaria o total dos repasses para pelo menos R$ 6 milhões.
Além das chamadas “mesadas”, a investigação aponta que Ciro teria obtido benefício econômico direto de pelo menos R$ 468 mil em despesas com viagens e refeições no exterior custeadas por Vorcaro. O valor não inclui custos com voos particulares utilizados em viagens internacionais de ida e volta ao Brasil, nem em deslocamentos internos nos Estados Unidos.
Entre os episódios citados está uma viagem a Courchevel, tradicional estação de esqui nos Alpes franceses. Segundo a PF, nos dias 21 e 22 de janeiro de 2025, Vorcaro teria arcado com R$ 122.112 em gastos de Ciro em dois restaurantes da região. A investigação também aponta despesas com hospedagem e alimentação em cidades como Nova York, Paris e Lisboa.
Emenda Master
Para os investigadores, as despesas reforçam a tese de que o senador teria recebido vantagens indevidas para atender a interesses de Vorcaro no Senado.
A Polícia Federal afirma que minutas de propostas legislativas eram elaboradas por uma equipe ligada ao Banco Master e encaminhadas a Ciro Nogueira para apresentação no Congresso.
Uma dessas propostas ficou conhecida como “Emenda Master”. O texto previa aumentar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mudança que poderia beneficiar instituições financeiras que utilizam a garantia do fundo para atrair investidores, como o Banco Master.
Em reportagem publicada em maio, a Agência Pública apontou que a emenda teria sido redigida pela assessoria do Banco Master e entregue ao senador. À época, Ciro Nogueira afirmou que pretendia reapresentar a proposta e argumentou que o valor de cobertura do FGC não era corrigido há anos.
Relação próxima
As conclusões da PF também se baseiam em mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro. Nos diálogos, o empresário se referia a Ciro como “muito amigo meu” e “um dos meus grandes amigos de vida”.
Apesar disso, os investigadores afirmam que o vínculo ultrapassava os limites de uma amizade pessoal.
“Tal vínculo de amizade transcende a mera relação pessoal, revelando-se, na verdade, uma relação funcional e instrumental, estruturada a partir da convergência de interesses ilícitos e orientada pelo benefício mútuo extraído por cada um dos envolvidos”, diz trecho do relatório da PF.
A investigação também menciona hospedagens, viagens, jantares e encontros em ambientes privados como elementos que indicariam uma relação contínua entre o senador e o ex-controlador do Banco Master.
Segundo a PF, Ciro teria atuado em benefício de interesse particular, em desacordo com as atribuições esperadas do mandato parlamentar.
A defesa de Ciro Nogueira foi procurada pela imprensa, mas não havia se manifestado até a última atualização. O espaço permanece aberto.
A defesa de Daniel Vorcaro informou que não vai comentar o caso.


