
A possível candidatura de Luizianne Lins ao Senado começa a produzir um efeito que vai além da disputa de 2026. O simples fato de seu nome voltar ao centro das negociações já anima uma parcela importante do eleitorado de esquerda no Ceará, especialmente em Fortaleza, principal reduto eleitoral da ex-prefeita.
Nos bastidores, há quem veja uma eventual vaga no Senado como parte de um grande entendimento entre os partidos da base governista. Uma das consequências desse acordo seria reduzir a pressão por uma candidatura de Luizianne à Prefeitura de Fortaleza em 2028, preservando o caminho para uma eventual tentativa de reeleição de Evandro Leitão.
O problema é que, quando o assunto é Luizianne Lins, a política raramente segue o roteiro.
Não é de hoje que ela sonha em voltar ao Palácio do Bispo. Em 2004, quando ainda despontava como uma das principais lideranças da esquerda cearense, contrariou a preferência do então presidente Lula e construiu uma candidatura que terminou com sua eleição para a Prefeitura de Fortaleza.
Duas décadas depois, muita coisa mudou.
Luizianne deixou o PT alegando não se sentir ouvida nem valorizada dentro do partido e passou a integrar a Rede Sustentabilidade. Hoje, portanto, já não está sob a influência direta das decisões internas petistas. Esse detalhe pode fazer toda a diferença.
Fortaleza continua sendo o principal ativo eleitoral de Luizianne. Nas eleições de 2022, dos 119.326 votos que recebeu para deputada federal, cerca de 65% vieram da Capital. Um desempenho que demonstra que sua força política permanece concentrada justamente no eleitorado fortalezense.
Com um mandato no Senado, projeção nacional e uma base eleitoral consolidada na Capital, Luizianne ganharia ainda mais autonomia para construir um novo projeto político.
E quem garantiria que ela abriria mão de disputar novamente a Prefeitura?
Há outro componente nessa equação.
Cid Gomes já demonstrou disposição para tensionar as negociações da base ao defender o nome de Júnior Mano para uma das vagas ao Senado. Uma Luizianne fortalecida no Senado, fora da estrutura partidária do PT e com maior independência política, pode representar mais um fator de pressão sobre o grupo liderado por Camilo Santana e pelo prefeito Evandro Leitão.
Há ainda um aspecto que torna essa vaga ainda mais estratégica. Historicamente, eleger um senador no Ceará sem o apoio da máquina estadual tem sido uma tarefa difícil. Até hoje, apenas Eduardo Girão conseguiu romper essa lógica. Para Luizianne, portanto, faria sentido buscar uma composição com a base governista para viabilizar sua chegada ao Senado. Mas, uma vez eleita e fortalecida por um mandato de oito anos, nada impediria que construísse um projeto próprio para voltar a disputar a Prefeitura de Fortaleza.
No fim das contas, a disputa pelo Senado pode estar desenhando muito mais do que a eleição de 2026.
Pode estar antecipando a principal batalha política de Fortaleza em 2028.
Porque a história já mostrou que Luizianne Lins dificilmente abre mão dos próprios projetos. E, se um dia contrariou até o então presidente Lula para disputar a Prefeitura de Fortaleza, não seria surpresa vê-la, mais uma vez, seguir o caminho que considerar melhor para sua trajetória política.

