
A morte de Jonas Muniz encerra muito mais do que a trajetória de um ex-prefeito. Marca o fim de um ciclo político que se confunde com a própria história recente do município de Cruz.
Há cidades que elegem prefeitos. Cruz viveu uma experiência diferente. Durante quase quatro décadas, a política local teve como principal referência um sobrenome: Muniz.
João Muniz Sobrinho nasceu em Acaraú, mas foi em Cruz que construiu sua trajetória política e empresarial. Ainda adolescente, começou ajudando o pai na agricultura e na pecuária. Aos 14 anos, abriu uma pequena bodega, passou a comercializar produtos como castanha e farinha e, com o passar dos anos, tornou-se um dos principais produtores rurais da região.
Mas seu maior patrimônio não estava apenas nas terras ou nos negócios.
Estava na política.
Jonas foi um dos principais articuladores do movimento que levou à emancipação de Cruz, na década de 1980. Com a criação do município, assumiu a primeira gestão administrativa da cidade. Era o início de uma trajetória que o levaria a ocupar a prefeitura por seis mandatos.
Um número que o colocou entre os prefeitos com maior quantidade de vitórias eleitorais após a redemocratização no Ceará.
Mais do que vencer eleições, Jonas construiu uma liderança política que atravessou gerações e manteve o grupo Muniz como protagonista nas disputas municipais.
Essa força, no entanto, nunca significou unanimidade.
Distritos como Paraguai, tradicional reduto evangélico, mantiveram resistência ao grupo político liderado por Jonas. Mas, durante décadas, a influência do ex-prefeito foi predominante na maior parte do município.
A força desse grupo ultrapassava os períodos eleitorais.
Moradores relatam que, em momentos de perda familiar envolvendo pessoas próximas a Jonas, a cidade demonstrava um sentimento coletivo de luto. Comércios fechavam as portas e a rotina do município era alterada. Após a morte do ex-prefeito, esse sentimento voltou a aparecer nas ruas de Cruz.
Mas o legado de Jonas também passa pela transformação econômica da região.
Ele foi um dos articuladores da implantação do Aeroporto Regional de Jericoacoara, uma obra que mudou a dinâmica turística do litoral oeste cearense. O equipamento impulsionou o crescimento da Praia do Preá, que deixou de ser apenas uma comunidade de pescadores para se tornar um dos principais destinos internacionais de kitesurf e turismo de alto padrão.
Um dos símbolos dessa transformação é o Vila Carnaúba.
O empreendimento, que recebeu investimentos milionários e valorizou o mercado imobiliário local, avançou em um momento em que poucos enxergavam o potencial econômico da região. Jonas teve participação na articulação de áreas e no diálogo com investidores que ajudaram a viabilizar o projeto.
Hoje, o complexo segue atraindo novos aportes, inclusive de grupos internacionais do setor hoteleiro.
O crescimento do turismo impulsionou também a economia de Cruz. O município passou a atrair trabalhadores de diferentes regiões e ganhou destaque entre as cidades do litoral oeste cearense, disputando protagonismo regional com municípios como Acaraú.
A dimensão política de Jonas também ficou evidente na despedida.
Governador, ex-governadores, aliados e adversários deixaram diferenças partidárias de lado para prestar homenagens. Elmano de Freitas, Cid Gomes, Ciro Gomes e Capitão Wagner estiveram no mesmo espaço, em uma cena pouco comum na política cearense.
Ao longo de seis mandatos, Jonas Muniz construiu uma das trajetórias políticas mais marcantes do interior do Ceará.
Mas talvez sua maior obra tenha sido transformar seu próprio nome em uma referência política capaz de atravessar décadas.
Porque, em Cruz, contar a história do município nas últimas quatro décadas é também contar a história do homem que ajudou a construir uma das maiores forças políticas do litoral oeste cearense.


