
A confirmação de uma nova tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos tem potencial para impactar as vendas de cerca de 3 mil itens. Apesar da relação com quase 2,2 mil produtos isentos, que contempla boa parte da pauta exportadora cearense para o país, como pescado, mel e coco, o setor calçadista será atingido, afetando diretamente uma das principais indústrias do Ceará.
Os calçados estão entre os três principais produtos comercializados pelo Ceará com o mercado externo. Eles ficam atrás apenas dos produtos siderúrgicos (ferro e aço) e, em alguns momentos, alternam a segunda colocação com o segmento de frutas.
Entre os setores beneficiados com a isenção, destacam-se as exportações de mel natural orgânico, pescados, frutas, ceras vegetais (como a cera de carnaúba), água de coco e castanhas de caju, mercados nos quais empresas cearenses possuem clientes nos Estados Unidos.
A medida foi adotada após a conclusão de uma investigação comercial conduzida durante um ano pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), com base na Seção 301 da legislação comercial americana. Para justificar a taxação, os norte-americanos citaram concorrência desleal às empresas americanas por conta do Pix, tarifas protecionistas, acesso ao mercado de etanol, ausência de proteção à propriedade intelectual de empresas (pirataria), corrupção e desmatamento ilegal.
Para Karina Frota, gerente do Centro Internacional de Negócios da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (CIN-Fiec), este é mais um cenário que exige prudência no intercâmbio comercial, e o efeito prático da taxação será a redução da competitividade da indústria nacional. Para a especialista em negócios internacionais, é fundamental acelerar as negociações diplomáticas entre os governos do Brasil e dos Estados Unidos, principalmente porque os norte-americanos seguem como o principal parceiro comercial do Ceará.
“A tarifa adicional de 25% posiciona o Brasil em desvantagem em relação a outros países que também fornecem produtos aos Estados Unidos. Para o Ceará, o setor de calçados é um dos setores que foram inseridos na tarifa adicional. É relevante estudar novos mercados e seguir com as negociações”, pontua.
O impacto sobre o setor calçadista ocorre após o Ceará ampliar sua participação na produção nacional em 2025, alcançando a liderança da produção brasileira ao responder por 24,4% de todos os pares fabricados no País, conforme relatório da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados).
Com aproximadamente 206,8 milhões de pares produzidos no Ceará, o Estado também lidera as exportações nacionais em volume de pares, concentrando 31,4% das vendas e superando o Rio Grande do Sul, que registrou 30,7%.
Somente o município de Sobral foi responsável pela produção de 123,8 milhões de pares de calçados em 2025. Também se destacam os polos calçadistas de Fortaleza, Quixadá e Juazeiro do Norte.
Nas exportações, apenas o Ceará registrou crescimento de 8% no volume de produtos comercializados em relação ao ano anterior, sendo o polo de Sobral responsável por US$ 112,3 milhões.
A Abicalçados também divulgou dados sobre o avanço do Ceará na geração de empregos na indústria calçadista. Em 2025, 24,5% das pessoas empregadas nesse setor em todo o País eram cearenses.
Na liderança entre os municípios que mais empregam na atividade está Horizonte, com 14,4 mil postos de trabalho. No ranking nacional dos dez primeiros também aparecem Sobral e Quixeramobim.
O presidente executivo da Abicalçados, Haroldo Ferreira, avalia que o tarifaço tornará inviáveis os negócios já em andamento e também futuras negociações com o mercado norte-americano.
“Isso vai prejudicar bastante a indústria calçadista nacional e coloca em risco muitos postos de trabalho. Os dois principais polos afetados são os do interior do Rio Grande do Sul e o interior de São Paulo, mas também muitas indústrias que estão instaladas na Bahia e no Ceará, que vendem produtos específicos que são destinados ao mercado norte-americano e devem sofrer bastante com o acréscimo no imposto de importação”, disse em entrevista à Rádio CBN.
O Governo do Ceará, por meio da Secretaria da Fazenda do Ceará (Sefaz-CE), informou que acompanha a decisão do governo dos Estados Unidos de aplicar novas tarifas sobre produtos brasileiros.
“A Pasta informa que está avaliando os impactos decorrentes da medida e possíveis estratégias para seu enfrentamento.”

