
Toda eleição começa com uma pergunta: quem está na frente? E, quase sempre, a resposta vem de uma pesquisa.
Os levantamentos eleitorais têm um papel importante na democracia. Ajudam o eleitor a conhecer o cenário, mostram tendências e fornecem informações que podem orientar estratégias de campanha. Para políticos, jornalistas e publicitários, são uma ferramenta de análise. Para a militância, também podem ser motivo de comemoração quando o candidato aparece na frente.
Mas pesquisa eleitoral é tudo isso. Só não é o resultado da eleição.
Uma pesquisa é uma fotografia. A eleição, porém, é um filme. Entre um levantamento e outro, o cenário pode mudar. Debates, propaganda, alianças, ataques, erros, acertos e fatos inesperados podem alterar a percepção do eleitor.
A história eleitoral brasileira tem exemplos de sobra.
Fortaleza, 1985: uma virada histórica
Em Fortaleza, na primeira eleição direta para prefeito após o período da ditadura militar, Paes de Andrade aparecia com ampla vantagem sobre Maria Luiza Fontenele.
Na última pesquisa permitida pela Justiça Eleitoral, divulgada 15 dias antes da votação, Paes tinha 46,6% das intenções de voto, contra 10,6% de Maria Luiza. O levantamento mostrava uma disputa que, naquele momento, parecia ter um favorito claro.
Nas urnas, porém, o cenário foi outro. Maria Luiza virou a eleição e terminou com 34,36% dos votos, contra 31,91% de Paes de Andrade.
A pesquisa não estava necessariamente “errada”. Ela registrava o momento em que foi realizada. O que mudou foi o filme até o dia da votação.
São Paulo, 1985: quando um debate pode mudar o jogo
Naquela mesma eleição de 1985, São Paulo produziu outro episódio marcante.
Fernando Henrique Cardoso era apontado como favorito na disputa pela prefeitura contra Jânio Quadros. Na reta final, um momento do último debate ganhou repercussão.
O jornalista Boris Casoy perguntou a FHC se ele acreditava em Deus. A resposta do candidato foi explorada pelos adversários e passou a fazer parte da disputa eleitoral. Fernando Henrique acabou derrotado por Jânio por uma diferença pequena.
O episódio, sozinho, não explica o resultado. Mas mostra como um acontecimento de campanha pode ganhar importância na reta final e alterar a dinâmica de uma disputa.
São Paulo, 1988: Maluf lidera, Erundina vence
Três anos depois, São Paulo voltou a registrar uma eleição que entrou para a história.
Paulo Maluf liderava as pesquisas, mas Luiza Erundina cresceu na reta final e terminou eleita prefeita.
Erundina recebeu 36,78% dos votos, contra 30,14% de Maluf. O resultado mostrou, mais uma vez, que uma vantagem nas pesquisas não garante a chegada na frente no dia da votação.
Rio de Janeiro, 2018: a pesquisa de véspera
Mais de três décadas depois, o Rio de Janeiro produziu um dos exemplos mais expressivos.
Na véspera do primeiro turno da eleição para governador, Eduardo Paes liderava o Datafolha com 27% dos votos válidos. Wilson Witzel aparecia com 17%.
Na urna, a ordem se inverteu. Witzel terminou o primeiro turno em primeiro, com 41,28%, enquanto Paes ficou com 19,56%.
A diferença entre a pesquisa e o resultado foi grande. E o caso ajuda a lembrar que, mesmo uma pesquisa feita muito perto da votação, continua sendo um retrato de um momento.
Ceará, 2022: a virada que aconteceu à vista
O Ceará tem um exemplo mais recente e particularmente relevante.
Em 2022, Capitão Wagner começou a campanha na liderança de diferentes levantamentos. Na primeira pesquisa Ipec, ele aparecia com 40% dos votos válidos. Elmano de Freitas tinha 23%.
Ao longo da campanha, porém, a distância foi diminuindo.
Elmano passou a 27%, depois a 36% e chegou a 44% na última pesquisa Ipec antes da votação. Wagner, que havia chegado a 44% em setembro, terminou o último levantamento com 37%.
Na urna, a virada foi confirmada. Elmano foi eleito no primeiro turno, com 53,69% dos votos válidos. Wagner terminou em segundo, com 31,72%.
Foi um caso em que as pesquisas não apenas registraram a mudança. Elas mostraram a mudança acontecendo ao longo da campanha.
Bahia, 2022: uma vantagem que foi desaparecendo
Na Bahia, também em 2022, ACM Neto começou a disputa com vantagem nas pesquisas sobre Jerônimo Rodrigues.
A distância, porém, foi sendo reduzida ao longo da campanha. Jerônimo cresceu, ACM Neto perdeu parte da vantagem e os dois chegaram ao primeiro turno em uma disputa muito mais equilibrada do que a apresentada no início da campanha.
Na urna, Jerônimo terminou o primeiro turno à frente, com 49,45% dos votos, contra 40,80% de ACM Neto, e avançou para o segundo turno. Na segunda etapa, confirmou a vitória com 52,79% dos votos válidos.
Aqui, a virada não aconteceu no segundo turno. Ela já havia sido produzida ao longo da campanha e confirmada no primeiro turno.
O que as pesquisas conseguem mostrar?
São eleições diferentes, em épocas diferentes e com circunstâncias diferentes. Não há uma fórmula única para explicar cada virada.
Mas os exemplos deixam uma lição importante.
Pesquisa eleitoral não é profecia.
Ela pode mostrar quem está na frente, quem está crescendo ou quem está perdendo espaço. Pode apontar uma tendência e até indicar um favorito.
O que ela não pode fazer é prever com certeza o que acontecerá entre a data da entrevista e o momento em que o eleitor aperta a tecla “confirma”.
E essa é uma diferença importante.
A pesquisa mede uma intenção de voto no momento em que o eleitor é entrevistado. A urna registra a decisão tomada no dia da eleição.
Entre uma coisa e outra, existe a campanha.
E é justamente por isso que quem aparece na frente hoje tem motivos para comemorar, mas não necessariamente para declarar vitória.
Porque estar na frente na fotografia de hoje é diferente de chegar na frente na fotografia final.
A pesquisa é uma fotografia.
A eleição é um filme.

