Na minha infância e adolescência “Por que me ufano do meu país” era livro obrigatório.
Os de minha geração, toda essa gente que tem hoje de sessenta a noventa anos, todo esse povo que nasceu de 1920 a 1950, há de se lembrar desse livro que nos fazia ter orgulho da condição de brasileiro.
Afonso Celso, o autor, começava por realçar nossa grandeza territorial, este Brasil imenso que nós falávamos que ia do Oiapoque ao Xuí.
Depois Afonso Celso exaltava a beleza do Brasil: o Rio Amazonas, a Cachoeira de Paulo Afonso, a Baía da Guanabara, a Floresta Tropical na sua pujança inigualável. Mesmo quem não tinha visitado esses lugares ficava com os olhos marejados de encantamento com a descrição que o escritor fazia de nossas plagas. Então, Afonso Celso começava a falar de nossas riquezas naturais, do subsolo ainda inexplorado, do Brasil como celeiro do mundo. Nosso amado Afonso Celso não se esquecia de timbrar na amenidade e variedade do nosso clima. Quase de joelhos, o grande Afonso Celso agradecia a Deus o fato de estar nosso país livre de calamidades – vulcões, terremotos e outras catástrofes. E vinha depois o elogio da miscenação – raças que se fundiram – índios, negros e portugueses – cada uma com suas virtudes gerando o mestiço brasileiro. Negou Afonso Celso, peremptoriamente, que foi de degradados que se povoou o Brasil, uma versão corrente em vários círculos. Muito pelo contrário, vieram para este solo herois expulsos de outras terras pelos sonhos de liberdade, insubmissos à opressão. Dizia nosso magnífico escritor que o Brasil nunca perdeu uma guerra, nunca foi humilhado pela força das armas. Também exaltou o nosso Afonso, como característica nacional, o procedimento cavalheiroso e digno para com outros povos. Não se esqueceu Celso de reverenciar os fastos de nossa História – os Bandeirantes, Palmares, a Independência, a missão civilizatória dos jesuítas, o grande monarca que foi Dom Pedro II.
Com tanta injeção de civismo, outro não podia ser o resultado: éramos todos patriotas, cantávamos com toda a força da alma o Hino Nacional, estávamos dispostos a qualquer sacrifício que a Pátria nos pedisse, preferíamos morrer antes de algum dia nos tornarmos corruptos.
Depois Afonso Celso foi ridicularizado. Zombou-se do seu orgulho nacional, criou-se mesmo a palavra ufanismo com sentido pejorativo para significar uma visão míope e falsa do Brasil. Aurélio registra ufanismo como sentimento dos que, influenciados pelo potencial de riquezas brasileiras, pelas belezas naturais do país, dele se vangloriam desmedidamente. Houiss, na mesma linha, conceitua ufanismo como patriotismo excessivo.
Será que o Conde de Afonso Celso exagerou? Será que a dose de intensa brasilidade que seu livro infundiu, principalmente na juventude de minha geração, trouxe prejuízo ao país?
Não partilho da visão negativa que se oponha a Afonso Celso. Abundância de brasilidade não causa dano ao país. Ausência de brasilidade sim, é uma lástima.
Houvesse brasilidade honesta e sincera, não teríamos falcatruas, corrupção, compra e venda de votos, traição aos interesses nacionais.
Resgatemos o ufanismo de Afonso Celso: “Moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, mas que beleza.” (Jorge Ben Jor).
João Baptista Herkenhoff é professor e escritor.


