
O Ceará contabilizou 1.927 vítimas de crimes sexuais em 2025, conforme dados do Painel Dinâmico da Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública (Supesp). Desse total, 1.435 vítimas eram menores de 18 anos, o equivalente a aproximadamente 74% dos registros no ano. Crianças de até 11 anos representam 41,93% das ocorrências.
Os crimes sexuais englobam estupro, estupro de vulnerável e exploração sexual de menores. Entre as vítimas menores de idade, 768 tinham entre 12 e 17 anos, correspondendo a 35,97% dos casos. Outras 396 vítimas estavam na faixa etária de 6 a 11 anos (27,14%). Já 271 crianças tinham até 5 anos de idade (14,79%).
Dados da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS) indicam que as vítimas mais novas registradas em 2025 tinham menos de um ano de idade. Um dos casos ocorreu em 18 de fevereiro, no município de Santana do Cariri, na região do Cariri, envolvendo uma bebê do sexo feminino. Outro foi registrado em 3 de novembro, em Fortaleza, tendo como vítima um bebê do sexo masculino. A SSPDS não informou os meses exatos de idade das vítimas.
Histórico de vítimas de violência sexual no Estado (crianças e adolescentes até 17 anos):
- 2025 – 1.435 vítimas
- 2024 – 1.627 vítimas
- 2023 – 1.674 vítimas
- 2022 – 1.442 vítimas
- 2021 – 1.534 vítimas
Fonte: Painel Dinâmico da Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública (Supesp)
A integrante da Comissão de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes do Fórum DCA Ceará, Lídia Rodrigues, avalia que, apesar de elevados, os números ainda não refletem totalmente a realidade.
“Existem situações de violência sexual que despertam mais indignação, que as pessoas denunciam mais, e isso acontece de forma muito forte com crianças. Quando as violências acontecem com adolescentes, há uma tendência das pessoas não quererem entender isso como violência sexual, de tentar culpabilizar as adolescentes pela violência que elas sofreram”, explica.
Ela também destaca que o aumento das denúncias envolvendo crianças nos últimos anos, especialmente entre as menores de 11 anos, deve ser compreendido dentro de um contexto mais amplo.
“Isso revela que as crianças estão falando um pouco mais e estão, de alguma forma, sendo creditadas pelas violências que sofrem, porque antes esses casos não chegavam de forma alguma”, avalia.
Segundo Lídia Rodrigues, a maior parte dos casos de abuso sexual ocorre no ambiente doméstico, sendo o agressor, muitas vezes, alguém em quem a criança confia, como parentes ou pessoas próximas da família. Os abusos podem envolver ameaças ou agressões físicas, além de ocorrerem por meio de brincadeiras ou outras estratégias baseadas na relação de confiança.
A dificuldade de comunicação das crianças mais novas é outro ponto de atenção.
“Muitas dessas violências não deixam marcas físicas”, afirma Lídia. “É por isso que é importante preparar os adultos para identificar e fazer a leitura de sinais mais sutis, emocionais, de mudança de comportamento [das crianças], porque isso ajudaria a ampliar esse nível de identificação”, destaca.
A especialista defende que as famílias promovam um ambiente de diálogo e confiança.
“Ensinar a nomear as partes do corpo de forma correta e quais partes não podem ser tocadas por outras pessoas, a não ser numa dimensão de cuidado, é fundamental”, afirma.
Responder às dúvidas das crianças de forma clara contribui para que elas se sintam seguras para relatar situações de violência.
O enfrentamento da violência sexual exige responsabilidade coletiva. “Qualquer pessoa que tiver alguma suspeita tem a responsabilidade legal de denunciar”, ressalta.
“O Estado, por sua vez, tem a responsabilidade de atuar quando essa violência acontece, para restituir o direito violado, para proteger a criança e para responsabilizar o autor da violência”, conclui Lídia Rodrigues, da Comissão de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes do Fórum DCA Ceará.
86% das vítimas de violência sexual no Ceará são mulheres
Dados da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS) mostram ainda que, entre as quase duas mil vítimas registradas em 2025, 86% são do gênero feminino. Em comparação com 2024, quando foram contabilizadas 2.044 vítimas, houve uma redução de 5,7% em 2025, embora os números permaneçam elevados em relação à série histórica.
De acordo com Cristina Nascimento, coordenadora do grupo Criart, que atua no enfrentamento à violência contra mulheres em Fortaleza, os dados também não representam totalmente a dimensão do problema.
“Há a dificuldade de informação e o desgaste emocional de ter que repetir a mesma história várias vezes, o que é angustiante. Soma-se a isso a falta de justiça. A mulher sofre a violência sexual, que muitas vezes evolui para o feminicídio, e, mesmo assim, o agressor é solto logo depois. Por causa de tudo isso, muitas vezes a denúncia nem chega a ser feita”, afirma.
Histórico de vítimas de violência sexual no Estado (todas as idades):
- 2025 – 1.927 vítimas
- 2024 – 2.044 vítimas
- 2023 – 2.154 vítimas
- 2022 – 1.909 vítimas
- 2021 – 1.946 vítimas
Fonte: Painel Dinâmico da Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública (Supesp)
A idade das vítimas adultas varia entre 18 e mais de 70 anos. O registro de maior idade em 2025 foi o de uma idosa de 87 anos, em ocorrência registrada no dia 14 de junho, no município de Quiterianópolis, na região do Sertão de Crateús.


