A recuperação do peso após a interrupção do uso de medicamentos para emagrecer ocorre de forma mais rápida do que quando são suspensos os métodos baseados em dieta e atividade física. É o que aponta um estudo britânico publicado nesta quinta-feira (08/01) na revista científica BMJ, que analisou resultados de diferentes tratamentos voltados à perda de peso.
Segundo os pesquisadores, pessoas que deixam de usar esses medicamentos tendem a recuperar o peso até quatro vezes mais rápido do que aquelas que interrompem apenas mudanças no estilo de vida. A pesquisa avaliou dados de 37 estudos clínicos que acompanharam pacientes após o fim de terapias para emagrecimento.
Medicamentos de nova geração utilizados no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2, como os que atuam no hormônio GLP-1, responsável por estimular a secreção de insulina e aumentar a sensação de saciedade, ganharam espaço nos últimos anos, sobretudo em países de alta renda. Em setembro, a Organização Mundial da Saúde (OMS) incluiu esses fármacos na lista de medicamentos essenciais, com recomendação para a produção de versões genéricas mais acessíveis.

Estudos anteriores indicam que esses tratamentos podem levar a uma redução entre 15% e 20% do peso corporal. Apesar disso, dados recentes mostram que cerca de metade dos pacientes abandona o uso dos medicamentos em até um ano. Entre os motivos estão os efeitos colaterais, como náuseas, e os custos elevados, embora haja tendência de queda nos preços. Nos Estados Unidos, por exemplo, os valores podem ultrapassar US$ 1.000 por mês, cerca de R$ 5.387 na cotação atual.
Ao analisar a interrupção dos tratamentos, os pesquisadores observaram que os participantes recuperaram, em média, 0,4 quilo por mês após o fim do uso dos medicamentos. Seis dos estudos avaliados focaram em substâncias como a semaglutida, princípio ativo do Ozempic, do Wegovy e do Mounjaro.
Durante o período de uso dessas medicações, os participantes perderam cerca de 15 quilos, em média. Após a suspensão do tratamento, recuperaram aproximadamente 10 quilos em um ano, o maior tempo de acompanhamento disponível para esses medicamentos mais recentes. Projeções do estudo indicam que o retorno ao peso inicial ocorre, em média, em 18 meses.

Além do peso corporal, outros indicadores de saúde também voltaram aos níveis anteriores ao tratamento. Parâmetros cardiovasculares, como pressão arterial e níveis de colesterol, retornaram aos valores de origem em cerca de um ano e quatro meses após a interrupção dos medicamentos.
Em comparação, pessoas que seguiram apenas programas de dieta e atividade física emagreceram menos, mas levaram, em média, quatro anos para recuperar o peso perdido. Os dados indicam que, embora a perda inicial seja menor, a manutenção dos resultados tende a ser mais duradoura quando não há uso de medicamentos.
Uma das explicações levantadas é que pessoas que adotam hábitos mais saudáveis, como alimentação equilibrada e prática regular de exercícios, tendem a manter esses comportamentos mesmo após recuperar parte do peso. Já os medicamentos atuam diretamente nos mecanismos biológicos da fome e da saciedade, sem necessariamente promover mudanças duradouras no estilo de vida.
Tratamento
Apesar dos resultados, especialistas destacam que os medicamentos do tipo GLP-1 seguem sendo ferramentas importantes no tratamento da obesidade. Para a nutricionista Susan Jebb, da Universidade de Oxford e coautora do estudo, a obesidade deve ser encarada como uma doença crônica e recorrente, o que pode exigir tratamentos contínuos, semelhantes aos adotados para controle da hipertensão.

O cenário levanta ainda questionamentos sobre o custo-benefício desses medicamentos para os sistemas públicos de saúde. Para o pesquisador Garron Dodd, da Universidade de Melbourne, que não participou do estudo, abordagens sustentáveis para o controle da obesidade devem combinar estratégias de longo prazo.
“Estes novos dados mostram claramente que são um ponto de partida, não uma cura. (…) Um tratamento sustentável provavelmente exigirá abordagens combinadas, estratégias mais a longo prazo e terapias que revisem a forma como o cérebro interpreta o equilíbrio energético, e não apenas a quantidade de alimentos ingeridos”, comentou.
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