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Óleo que atingiu o Nordeste em 2019 chegou à Flórida, revela estudo

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC), em parceria com instituições internacionais, identificou um caso inédito de transporte de petróleo em larga escala pelo oceano. O óleo que atingiu o litoral do Nordeste brasileiro em 2019 percorreu cerca de 8.500 quilômetros e chegou à costa da Flórida, nos Estados Unidos, em aproximadamente 240 dias.

De acordo com a pesquisa, publicada neste mês de janeiro na revista científica Environmental Science & Technology, o deslocamento foi possível devido à interação do petróleo com resíduos plásticos marinhos. Eles atuaram como vetores de transporte e permitiram que o óleo superasse processos naturais de degradação.

Entre maio e setembro de 2020, uma grande quantidade de garrafas de vidro e plástico, parcialmente ou totalmente cobertas por resíduos pretos, passou a ser registrada no litoral de Palm Beach, no sudeste da Flórida. A cidade está localizada no ponto mais oriental da península e é influenciada pela Corrente do Golfo do México, além de ventos predominantes que favorecem a chegada de detritos marinhos.

Óleo que atingiu o Nordeste em 2019 chegou à Flórida, revela estudo
Foto; Environmental Science & Technology

O episódio chamou atenção pela frequência diária e pelo volume incomum de resíduos ao longo de vários meses. Em parte das garrafas, quando os rótulos estavam preservados, havia inscrições em português, espanhol e inglês. A chegada do material foi divulgada nas redes sociais pela organização Friends of Palm Beach (FOPB), dedicada à limpeza do litoral local.

No mesmo período, fardos de borracha também foram encontrados na região. Os objetos eram semelhantes aos que haviam sido registrados na costa do Nordeste brasileiro em 2019. A coincidência levou pesquisadores do Instituto de Ciências do Mar (Labomar-UFC) a investigar uma possível conexão entre os eventos.

A hipótese foi confirmada a partir de análises químicas e modelagens numéricas. O estudo concluiu que o lixo marinho, especialmente o plástico, pode promover a contaminação transfronteiriça por petróleo ao ampliar o alcance espacial e o tempo de permanência do óleo no ambiente marinho.

Segundo os pesquisadores, em derramamentos convencionais, o petróleo tende a não percorrer grandes distâncias devido ao intemperismo, processo que inclui evaporação, dissolução, degradação fotoquímica e biodegradação, além de medidas de resposta, como o uso de dispersantes. Porém, quando aderido a resíduos sólidos flutuantes, o óleo consegue se manter na superfície por mais tempo e ser transportado pelas correntes oceânicas.

Óleo que atingiu o Nordeste em 2019 chegou à Flórida, revela estudo
Foto: Divulgação

O estudo também aponta riscos ambientais associados ao fenômeno. O professor Carlos Teixeira, do Labomar e coautor da pesquisa, destaca que a Margem Equatorial Brasileira, que se estende do Rio Grande do Norte ao Oiapoque, é uma nova fronteira de exploração de petróleo. Segundo ele, o contato do óleo com resíduos pode permitir que eventuais derramamentos atinjam regiões distantes.

Além disso, o plástico impregnado de óleo representa risco adicional à fauna marinha. A ingestão de resíduos plásticos já é considerada uma ameaça aos organismos marinhos e, quando associada a hidrocarbonetos do petróleo, pode potencializar efeitos tóxicos. Com isso, a chegada desse material às praias amplia a exposição de animais e seres humanos aos contaminantes.

A pesquisa integra um conjunto de estudos desenvolvidos pela UFC sobre o derramamento de óleo registrado em 2019, considerado um dos maiores da América do Sul, que atingiu mais de três mil quilômetros do litoral brasileiro. Mais de 20 artigos científicos já foram publicados sobre o tema.

À época, autoridades brasileiras apontaram quatro petroleiros como possíveis responsáveis pelo derramamento. Pesquisadores do Labomar também levantaram a hipótese de que o petróleo e os fardos de borracha pudessem ter origem no SS Rio Grande, navio alemão afundado pela Marinha dos Estados Unidos em janeiro de 1944, durante a Segunda Guerra Mundial.

A embarcação está localizada a cerca de mil quilômetros da costa brasileira, a 5.762 metros de profundidade. A origem definitiva do óleo, no entanto, segue sem confirmação.

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