
A Polícia Federal concluiu uma investigação que aponta o deputado federal Júnior Mano (PSB-CE), pré como possível líder de uma estrutura organizada para desviar recursos públicos, manipular licitações e influenciar eleições municipais no Ceará.
O relatório final foi encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF), instância responsável por analisar casos envolvendo parlamentares com foro privilegiado.
Segundo os investigadores, o esquema envolveria empresários, operadores políticos, assessores do deputado e agentes públicos, que atuariam de forma coordenada para direcionar emendas parlamentares a municípios aliados e, posteriormente, influenciar a celebração de contratos públicos nessas cidades.
O esquema
De acordo com a Polícia Federal, a organização atuava em diferentes frentes com o objetivo de consolidar influência política e obter vantagens financeiras a partir de recursos públicos.
O relatório aponta que valores provenientes de emendas parlamentares eram direcionados a municípios considerados estratégicos. Nessas localidades, candidatos a prefeito alinhados ao grupo receberiam apoio político e, em alguns casos, financeiro durante o período eleitoral.
Após a eleição dos aliados, as administrações municipais passariam a celebrar contratos públicos com empresas vinculadas ao grupo investigado, criando um ciclo que envolveria recursos federais, campanhas eleitorais e contratos administrativos.
Interceptações telefônicas e mensagens analisadas pela investigação indicam que havia planejamento eleitoral estruturado, com investimento prévio em campanhas e articulação política voltada à eleição de candidatos alinhados ao grupo.
Em uma das conversas analisadas pela Polícia Federal, o deputado teria afirmado que o grupo já havia “feito sua parte” para garantir resultados eleitorais em municípios como Cascavel, Morada Nova e Canindé.
A investigação também aponta que havia acompanhamento constante da liberação de emendas parlamentares, com registros detalhados sobre a tramitação desses recursos. Em contrapartida, segundo os investigadores, havia menos informações sobre a execução efetiva das obras financiadas, o que levanta suspeitas de que o foco central seria a movimentação financeira dos valores destinados aos municípios.
Núcleo do grupo
O relatório da Polícia Federal descreve a existência de um núcleo político e operacional responsável por articular a distribuição dos recursos e a influência política nas cidades envolvidas.
Entre os nomes citados está Carlos Alberto Queiroz Pereira, conhecido como Bebeto do Choró, apontado como um dos principais articuladores do grupo. A investigação também menciona Adriano Almeida Bezerra, assessor ligado ao deputado e citado como responsável por acompanhar a tramitação de emendas parlamentares.
Também aparecem no relatório Ednardo Costa Guerreiro de Mesquita, vinculado ao gabinete do parlamentar, além de Francisco Antonio Gomes Souza e Márcio Alberto dos Reis, que igualmente teriam ligação com a estrutura política do deputado.
A Polícia Federal cita ainda Vicente Costa Gonçalves e Francisco Rodolfo Marques Bezerra, apontados como possíveis beneficiários de repasses relacionados às atividades investigadas.
Segundo os investigadores, além do núcleo político, o grupo também contaria com empresários e intermediários financeiros, responsáveis por operacionalizar contratos públicos e movimentações de recursos.
Empresas e movimentações financeiras
A investigação também identificou um conjunto de empresas suspeitas de participar do esquema, utilizadas tanto para a celebração de contratos públicos quanto para a movimentação de recursos.
Entre as empresas mencionadas estão MK Serviços, AM Transportes, CAIO Construções e K H Leoncio Silva. De acordo com a Polícia Federal, essas empresas aparecem em transações financeiras envolvendo diversos investigados, formando uma rede de movimentação de recursos possivelmente relacionada a crimes contra a administração pública e ao processo eleitoral.
Uma das empresas analisadas, J B Lima Eletrônicos, vinculada à AM Transportes, teria realizado aplicações financeiras superiores a R$ 2,5 milhões, valor considerado incompatível com sua estrutura declarada. Para os investigadores, esse tipo de movimentação pode indicar lavagem de dinheiro e ocultação de recursos ilícitos.
Uso de intermediários
O relatório também aponta o uso de intermediários financeiros, conhecidos popularmente como “laranjas”, para dificultar o rastreamento das operações.
Um dos exemplos citados pela investigação envolve Luis Guilherme Galvino Cavalcante, que teria movimentado mais de R$ 700 mil em operações financeiras sem apresentar capacidade econômica compatível com os valores registrados.
Segundo a Polícia Federal, esse tipo de movimentação pode indicar a utilização de terceiros para ocultar a origem e o destino final dos recursos.
Influência em prefeituras
De acordo com o relatório, o grupo investigado buscava exercer influência sobre administrações municipais após o apoio eleitoral.
A investigação cita articulações políticas em cidades como Canindé, Choró, Morada Nova, Cascavel e Caucaia. Em alguns desses municípios, segundo os investigadores, haveria indícios de direcionamento de licitações, superfaturamento de obras e execução parcial de serviços contratados.
Recursos públicos e contratos
Documentos apreendidos pela Polícia Federal indicam ainda a destinação de emendas parlamentares para fundos municipais de saúde, com destaque para o município de Nova Russas, apontado como um dos pontos centrais no fluxo de recursos investigado.
Planilhas encontradas durante a investigação indicam repasses que somariam mais de R$ 6 milhões para municípios cearenses, incluindo cidades como Barreira, Aratuba e São Luís do Curu.
Investigação no Supremo
Como o deputado possui foro por prerrogativa de função, o relatório foi encaminhado ao Supremo Tribunal Federal, que deverá analisar os elementos reunidos pela Polícia Federal e decidir sobre os próximos passos da investigação.
Entre as possibilidades estão a autorização de novas diligências, a abertura de ação penal ou eventual apresentação de denúncia por parte da Procuradoria-Geral da República.
Até o momento, o deputado Júnior Mano não foi condenado, e as conclusões apresentadas no relatório da Polícia Federal ainda serão analisadas pelas instâncias judiciais competentes.

