
Uma investigação conduzida pela Polícia Federal aponta para a existência de um esquema estruturado de corrupção envolvendo a destinação e o possível desvio de recursos públicos no Ceará. O principal articulador deste esquema criminoso seria o deputado federal Júnior Mano (PSB), pré-candidato ao Senado. O material reunido pelos investigadores foi encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF), que deve analisar o caso. De acordo com o relatório da investigação, foram reunidos documentos, planilhas, registros de conversas e mensagens obtidas a partir da quebra de sigilos e da análise de celulares e computadores apreendidos.
De acordo com os investigadores, as provas apontam para a atuação de um grupo organizado que teria interferido na destinação de verbas públicas a municípios, com indícios de manipulação na aplicação desses recursos. Nas apurações. Em relatório citado na investigação, a Polícia Federal afirma que o parlamentar “figura como líder político do grupo criminoso”, exercendo influência na articulação política e na movimentação de recursos vinculados ao esquema.
Possíveis negociações de Júnior Mano
Segundo os investigadores, o grupo teria atuado na captação e no direcionamento de recursos públicos com o objetivo de fortalecer bases políticas em diversos municípios cearenses. A investigação também identificou indícios da cobrança de percentuais sobre recursos destinados a prefeituras. De acordo com a apuração, haveria a exigência de retorno financeiro sobre valores enviados a determinados municípios, em taxas que chegavam até 12%. O mecanismo foi descrito pelos investigadores como uma espécie de pedágio cobrado sobre verbas públicas liberadas.
As suspeitas também envolvem crimes como organização criminosa, lavagem de dinheiro, corrupção, falsidade ideológica e possíveis irregularidades com finalidade eleitoral. As apurações indicam que o grupo mantinha uma estrutura organizada que combinava interesses políticos e administrativos na gestão e na aplicação de recursos públicos.
Histórico das operações
O caso está sob análise do Supremo Tribunal Federal, responsável por conduzir os desdobramentos do processo em razão do foro do parlamentar. O material encaminhado pela Polícia Federal será avaliado pela Corte, que deverá decidir sobre os próximos passos da investigação. As apurações sobre o caso vêm sendo desenvolvidas ao longo dos últimos anos e já deram origem a diferentes ações da Polícia Federal. Conforme a PF, a suspeita é que esse esquema se sustente desde 2020.
Em julho de 2025, foi deflagrada a Operação Underhand, que cumpriu mandados de busca e apreensão em cidades como Fortaleza, Nova Russas, Eusébio, Canindé e Baixio, além de endereços ligados a Júnior Mano em Brasília. Na ocasião, os policiais buscavam reunir provas sobre suspeitas de desvio de recursos públicos, fraudes em licitações e utilização irregular de emendas parlamentares destinadas a municípios cearenses.
Durante a operação, também foi determinado o bloqueio de mais de 54 milhões de reais em contas bancárias de pessoas físicas e jurídicas investigadas, medida adotada para interromper a movimentação de recursos considerados suspeitos. As investigações apontam que o suposto esquema teria atuado em diversas cidades do Ceará e envolvido agentes políticos, empresários e operadores financeiros.
Supostos envolvidos
Segundo a Polícia Federal, trata-se de uma estrutura que, de acordo com os indícios reunidos até agora, teria sido utilizada para influenciar a destinação de verbas públicas e fortalecer projetos políticos locais. No caso atual, outro nome citado na investigação é o do empresário conhecido como Bebeto do Choró (PSB), foragido da Justiça desde o dia 1º de janeiro de 2025. Ele, que é ex-prefeito do Choró, no Serão Central, é apontado pela Polícia Federal como um dos personagens ligados à estrutura investigada.
De acordo com os relatórios produzidos pelos investigadores, ele teria atuado como intermediador em articulações envolvendo municípios e operadores do suposto esquema. As apurações indicam que Bebeto manteria relações próximas com agentes políticos e empresários que aparecem nas trocas de mensagens e documentos analisados pela PF.
Resposta do deputado
Em nota, a assessoria do deputado federal considerou “exagerada” as conclusões da Polícia Federal. Em trecho da nota, Júnior Mano afirma que não é ordenador de despesas e que não cometeu nenhuma irregularidade.
“Depois de um ano de uma ruidosa investigação, a Polícia Federal nada encontrou de relevante contra o deputado Júnior Mano. As conclusões do relatório final são exageradas, genéricas e sem provas. Júnior Mano não é ordenador de despesas, não participou de licitações e, portanto, não tem como controlar a aplicação final de recursos federais. O deputado reafirma, com firmeza, que não cometeu qualquer irregularidade. É lamentável o vazamento seletivo de informações sigilosas justamente num momento em que os partidos começam a definir as candidaturas para as eleições deste ano. Esperamos que o inquérito aberto para apurar o vazamento de dados protegidos por sigilo apresente uma resposta clara contra o uso de informações processuais com fins políticos”, afirmou.


