
Itens básicos para a rotina doméstica, os produtos de higiene pessoal e limpeza seguem pressionando o orçamento das famílias em Fortaleza, não apenas pelos preços em si, mas pela grande diferença entre estabelecimentos.
Levantamento realizado pelo projeto Preço Comparado aponta que um mesmo produto pode custar quase quatro vezes mais a depender do supermercado escolhido, com variações que chegam a 297%.
A disparidade evidencia um cenário já conhecido do consumidor: a falta de padronização nos preços e a importância da pesquisa antes da compra.
Em um contexto de consumo recorrente — já que são itens indispensáveis no dia a dia — pequenas diferenças unitárias podem se transformar em impactos relevantes ao longo do mês.
A análise realizada tem como base o levantamento mensal de preços feito pelo Programa de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon Fortaleza), que monitora cerca de 100 produtos essenciais em 36 supermercados distribuídos pela Capital.
O presidente do Procon Fortaleza, Wellington Sabóia, destaca que a pesquisa tem um caráter informativo e educativo.
“É bom deixar claro que os supermercados são obrigados a cumprir o preço anunciado em ofertas e publicidade. Caso se identifiquem diferenças de preços entre o valor informado na prateleira com o valor registrado no caixa, o consumidor pagará o menor valor”, explica.
A partir dessa base de dados, a equipe de Jornalismo do O POVO realizou um recorte específico com foco em itens de higiene pessoal e limpeza doméstica. Foram considerados 13 dos principais supermercados de Fortaleza, selecionados de acordo com relevância e presença nas diferentes regiões da Cidade, repetidos ao longo do ano para manter padrão de análise.
Para esta reportagem, foram analisados 20 produtos, priorizando itens de uso frequente e marcas amplamente disponíveis ao consumidor. A comparação levou em conta produtos equivalentes em marca, volume e características.
Os preços apresentados correspondem aos valores encontrados no período da coleta, que ocorreu entre os dias 2 e 13 de março de 2026, podendo sofrer alterações ao longo do tempo, em função de promoções, estratégias comerciais ou localização das unidades.
Diferenças que chamam atenção
Entre os produtos observados, os lenços umedecidos (pacote com 48 unidades) lideram a lista de maior variação, com preços que vão de R$ 6,19, no Super do Povo Supermercados (Henrique Jorge), a R$ 24,59, localizado no Guará Supermercado (Praia de Iracema), uma diferença de 297%.
Na prática, o consumidor pode pagar quase quatro vezes mais pelo mesmo item, dependendo do local de compra.
Outro destaque é o fio dental (100 metros), que apresenta variação de 281%, sendo encontrado entre R$ 5,35, também no Super do Povo, do Henrique Jorge, e R$ 20,39, no Guará da Praia de Iracema. Já o talco para bebê (100 g) também aparece entre os maiores contrastes, com diferença de 138%.
No segmento de cuidados capilares, o condicionador (Seda 325 ml) apresenta variação de 66%, seguido pelo shampoo da mesma marca, com 56%. Os dados reforçam que nem mesmo produtos amplamente consumidos e de marcas populares mantêm estabilidade de preços.
Produtos mais tradicionais da rotina doméstica não escapam das oscilações. O sabão em barra (pacote com cinco unidades) varia 76%, enquanto o sabonete (Lux 85 g) registra diferença de 74% entre os estabelecimentos pesquisados.
Variação passa por marcas, estratégia e até percepção de preço
A diferença observada não está ligada apenas ao produto em si, mas a um conjunto de fatores que envolvem desde o posicionamento das marcas até estratégias comerciais do varejo.
De acordo com Aline Alves de Oliveira, professora e coordenadora do curso de Economia da Universidade Regional do Cariri (Urca), marcas mais consolidadas tendem a operar com preços mais elevados devido ao reconhecimento no mercado. “Essa fidelidade permite, inclusive, a prática de preços mais altos”, explica.
Por outro lado, marcas menos conhecidas costumam adotar preços mais competitivos como forma de conquistar espaço, o que contribui diretamente para ampliar a variação entre os valores encontrados nas prateleiras.
Já na avaliação do economista Alex Araújo, a lógica de precificação vai além da marca e envolve estratégias específicas do varejo. Um dos pontos destacados por ele é a chamada baixa transparência de preços, especialmente em itens de menor valor.
“Muitos desses produtos fogem da memória de compra do consumidor, o que dificulta a percepção de quando o preço está alto ou baixo”, afirma.
Outro mecanismo comum, segundo o economista, é o uso de “produtos isca” — itens vendidos com preços muito baixos, às vezes até abaixo do custo, com o objetivo de atrair o consumidor para o estabelecimento. A estratégia pode criar a sensação de economia geral, mesmo quando outros produtos estão mais caros.
Além disso, diferenças sutis na composição ou qualidade — como concentração de ativos ou formulações específicas — também podem justificar variações de preço entre produtos aparentemente semelhantes.
A dica do Procon Fortaleza é manter o hábito de pesquisar e comparar preços, estando atento a dias de ofertas e encartes publicitários.
“Outra forma que pode representar uma boa economia é optar pela compra em aplicativos das redes de supermercados, utilizando cupons de desconto. Alguns estabelecimentos também reduzem preços na compra de combos de produtos”, completa o presidente do Procon Fortaleza, Wellington Sabóia.


