Denunciado por assédio por uma das alunas do curso de Agronomia da Universidade Federal do Ceará (UFC), um professor do Departamento de Física da instituição afastou-se ontem das atividades. No mesmo dia, a UFC abriu sindicância para apurar o caso. O docente é alvo de Boletim de Ocorrência feito na Delegacia de Defesa da Mulher.
Em mensagem aos estudantes, o chefe do Departamento de Física informou que “o referido docente se afastou, de forma voluntária, das suas atribuições de ensino” e que a chefia “está providenciando um professor para substituí-lo”.
Na última segunda-feira, 12, uma estudante de 16 anos relatou que foi agredida pelo professor, que, durante a aula, no Campus do Pici, por volta das 19h30min, pediu que a adolescente se postasse de frente para a turma.
De pé atrás dela, o docente desferiu três empurrões, seguidos de comentários de cunho sexual como “ela gosta” e “porrada por trás é sempre gostoso”. O professor ainda teria agarrado a aluna, levantando-a pelas costas. A família da menina, então, denunciou-o por assédio. Depoimentos colhidos ontem apontam que o número de possíveis casos de assédio sexual e constrangimento envolvendo o mesmo professor pode ir muito além do que veio a público até agora. “Isso é recorrente (o assédio)”, disse uma estudante que não quis se identificar. “A gente escuta essas histórias desde sempre.” Formada em 2015, ela conta que, certa vez, dentro da sala, o professor perguntou se havia “alguma aluna usando saia para dar um exemplo de força gravitacional”.
Sob anonimato, uma jovem de 18 anos conta que abandonou o curso de Química da UFC por causa do comportamento abusivo do professor. “Foi uma experiência traumática. Várias vezes ele me dizia que mulher não devia estar fazendo pesquisa. Não apresentei trabalhos em congressos, não fiz nada”, diz. Bolsista no laboratório coordenado pelo docente, ela relata ter tido “um ano improdutivo”, mas que o pior foi quando ele a convidou para participar de um evento acadêmico. “Ele entrou no laboratório nesse dia e disse a meus colegas, todos homens: ‘Vou levar ela pro congresso só pra mostrar que tem estudante gostosa na Física’”.
Também pedindo sigilo do seu nome, aluna do 2º semestre de Agronomia narra que, na última sexta-feira, 9, chegou atrasada à aula. “Meu cabelo é cacheado. Ele virou pra turma e disse que eu tinha pulga. Resolvi deixar o curso depois disso”, relembra. A estudante confirma que o docente costuma assediar as meninas no departamento.
“Foi logo no primeiro semestre”, começa outra jovem, que também pede anonimato. “Ele parou a aula e deu um exemplo: ‘Imagine eu e você numa banheira de motel. Qual a força de atrito que existe?’”, narra. Outra vez, ela diz, o professor ilustrou uma aula sobre força e massa com duas garotas: uma loura e outra morena. “Suponha que elas tenham atração por mim”, teria falado o professor. “Isso era muito comum. Mas, na época, a gente não fez nada, e ficou por isso mesmo. Hoje é diferente”, responde a estudante.
Há dois dias, há uma tentativa de contato com o professor alvo das denúncias. Houve ligações para o telefone dele no Departamento de Física da UFC e foram feitas ligações para o advogado do docente, mas, até o fechamento desta edição, não houve resposta.
Com informações do Jornal O Povo


