Uma bactéria encontrada em organismos marinhos presentes nas praias da Taíba, em São Gonçalo do Amarante, e de Paracuru pode representar um avanço promissor na busca por novos tratamentos contra o câncer. A descoberta foi feita por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade de São Paulo (USP), que identificaram uma substância capaz de apresentar resultados semelhantes aos de quimioterápicos tradicionais em testes laboratoriais.
O estudo, publicado em abril na revista científica Chemistry and Biodiversity, investigou a molécula denominada piericidina A1. O composto foi isolado de uma bactéria do gênero Streptomyces, chamada BRA-035, encontrada sobre zoantídeos do gênero Palythoa, invertebrados marinhos aparentados a corais e anêmonas que habitam o litoral cearense.

Embora o potencial anticâncer das piericidinas seja conhecido pela comunidade científica desde a década de 1970, a pesquisa trouxe uma contribuição inédita ao identificar os tipos de tumores mais suscetíveis à ação da molécula. Segundo a pesquisadora Katharine Florêncio, integrante do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM) da UFC e uma das autoras do estudo, o objetivo foi compreender de forma mais aprofundada como a substância atua e quais células tumorais respondem melhor ao tratamento.
A pesquisadora destaca que os resultados representam uma etapa inicial e que ainda serão necessários diversos estudos para avaliar a eficácia e a segurança da molécula antes que ela possa ser considerada uma alternativa terapêutica. Apesar dos desafios, ela avalia que a descoberta amplia as perspectivas para o desenvolvimento de novos medicamentos oncológicos.
O trabalho foi realizado entre 2017 e 2019 durante o mestrado de Katharine Florêncio e da pesquisadora Bianca Sahm, ambas da UFC à época. A divulgação dos resultados ocorreu apenas neste ano, quando as cientistas já atuavam em programas de pós-doutorado, na UFC e na USP.
Para definir os alvos da pesquisa, os cientistas priorizaram tumores com elevados índices de mortalidade. Entre eles estão os cânceres de próstata e de ovário. No Ceará, o câncer de próstata figura entre os que mais provocam mortes, enquanto o câncer de ovário está entre os dez mais letais do país. De acordo com Katharine, os testes mostraram que a piericidina A1 foi capaz de reduzir significativamente o metabolismo desses tumores.

Outro resultado que chamou a atenção dos pesquisadores foi a potência demonstrada pela molécula. Em laboratório, ela conseguiu agir contra células cancerígenas em concentrações extremamente baixas, na mesma faixa observada em medicamentos considerados referência no tratamento de cânceres de próstata e ovário.
Na prática, isso indica que pequenas quantidades da substância já podem provocar a morte de células tumorais, característica considerada altamente desejável na pesquisa farmacêutica.
Como funciona?
Os estudos também ajudaram a esclarecer o mecanismo de ação da molécula. A piericidina A1 atua bloqueando o funcionamento das mitocôndrias, estruturas responsáveis pela produção de energia celular. Dessa forma, tumores mais dependentes desse processo metabólico tendem a ser mais sensíveis ao composto.
Essa característica foi observada nos cânceres de próstata e ovário, que dependem mais da respiração celular. Já tumores como leucemias e alguns tipos de câncer de pele apresentaram resistência à substância, por utilizarem predominantemente outro mecanismo de obtenção de energia, conhecido como glicólise anaeróbica.
Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores alertam para a necessidade de investigar possíveis efeitos tóxicos da molécula em células saudáveis. Como ocorre com diversos quimioterápicos atualmente utilizados, existe a possibilidade de que o composto também afete tecidos não tumorais.

Segundo Katharine Florêncio, os próximos estudos deverão avaliar justamente o grau de seletividade da substância. A gente precisa fazer esses [novos] estudos para ver especificidade, saber qual o potencial tóxico dele [piericidina A1] na célula tumoral e não tumoral”, disse.
Próximos passos
A pesquisadora ressalta que o desenvolvimento de um novo medicamento é um processo longo, que pode levar mais de uma década até chegar ao mercado. Ainda assim, ela acredita que a piericidina A1 possa futuramente atuar como tratamento complementar, ajudando a enfraquecer tumores e potencializando a ação de terapias já existentes.
Antes disso, entretanto, serão necessários novos testes laboratoriais e estudos em organismos vivos. Caso os resultados continuem positivos e seguros, a substância poderá avançar para pesquisas em humanos, etapa fundamental para confirmar seu potencial no combate ao câncer.
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