Considerado especial desde jovem, neurocientista fala sobre decreto assinado por Bolsonaro sobre Educação Especial
Fabiano de Abreu chegou a quase ser expulso da escola por não ser compreendido em sua super dotação. Ele luta para uma mudança no tipo de educação no país e no olhar com as pessoas consideradas especiais
Neurocientista, neuropsicólogo, psicanalista, jornalista e pesquisador. Fabiano de Abreu acredita que a separação de alunos conforme perfis e capacidades podem promover mais oportunidades e desenvolvimento melhores. Fabiano de Abreu foi agraciado com um QI (quociente de inteligência) acima da média. Seus 180 pontos lhe permitiram integrar a Mensa, organização internacional de pessoas com QI acima de 98 pontos de percentil ou acima de 148 dependendo do desvio padrão no teste, considerado mais que elevado, com 99 de percentil. No entanto, seu dom foi motivo de descontentamento ao longo dos anos escolares por não se fazer compreendido. Dessa forma, ele acredita que alunos com diferentes níveis de inteligência merecem atenção proporcional às suas capacidades. “Todos os países mais desenvolvidos têm essa separação, no caso de superdotados, nunca tive uma atenção especial e minha vida só tomou um rumo devido ao meu esforço pessoal contra todos os empecilhos que há no Brasil para crescer como empreendedor, que foi o que me tornei”, afirma.
No último dia 30, o presidente Jair Bolsonaro assinou o decreto n° 10.502, que Instituiu a Política Nacional de Educação Especial: Equitativa, Inclusiva e com Aprendizado ao Longo da Vida, conforme o texto. A medida gerou debate entre profissionais e entidades ligadas à educação e aos direitos das pessoas com deficiência, que consideraram um retrocesso. No entanto, para o estudioso da mente e da inteligência Fabiano de Abreu, há aspectos a serem analisados. “Todos buscarão o seu melhor com foco e determinação. Mas nada disso adianta se não tiver apoio, alguém que enxergue, que se dedique de forma singular e não plural”, analisa o pesquisador. O decreto prevê tratamento diferenciado tanto para estudantes com deficiência física ou intelectual quanto para superdotados, o caso de Fabiano de Abreu.
O carioca e lusodescendente, hoje radicado em Portugal, acredita que se tivesse tido uma educação diferente da tradicional seu período estudantil teria sido mais interessante. “Na escola eu não queria estudar e nem assistir às aulas, cheguei a ser convidado a me retirar no Colégio Bahiense no Rio de Janeiro”, lembra. Na quarta série, em outra escola, sua mãe foi questionada se Fabiano teria algum problema para falar, já que não se relacionava com os colegas, “depois, na oitava série, eu era o oposto, o rebelde sem causa que induzia os demais colegas e não era bem visto, mas nenhuma dessas escolas se preocupou em saber o motivo, avaliar a persona em si”.
Para alunos superdotados ou com alguma dificuldade física ou cognitiva, a escola pode ser chata e maçante, o resultado é a falta de vontade de frequentar as aulas, que pode resultar em desinteresse pelos estudos e até abandono. “Hoje em dia percebo as nuances desta herança portuguesa na formatação da educação no Brasil, digo isso pois em Portugal é igual, também não valorizam talentos e pessoas especiais”. Sua superação foi atingida por força de vontade e estímulos fora da sala de aula, no entanto, o modelo brasileiro ainda tem dificuldade de lidar com outros olhares. “Tenho um amplo estudo sobre inteligência, educação e profissões que em breve serão publicadas. Até hoje, mesmo com o meu currículo, ainda busco melhores validações nos Estados Unidos, onde concluí graduações com isenções de pagamentos e eliminação de cadeiras, e em países como a França, onde faço meu Doutorado por convite. No entanto, nem Portugal, país de minhas raízes já que sou filho de português, nem o Brasil valorizaram, sequer analisaram qualquer tese que seja nem minha”, desabafa. Hoje, aos 38 anos, enfrentando inúmeras dificuldades para continuar suas pesquisas, Fabiano acredita que se houvesse uma visão diferente da Educação, seria diferente. “Se eu tivesse sido notado na escola, quem sabe eu já não teria sido um pesquisador e cientista há muito mais tempo? Triste realidade de uma cultura em que ninguém liga para nada disso e não percebe que tudo isso faria uma diferença para a própria vida. A prova disso é que todos querem morar na França e nos Estados Unidos”, destaca o cientista que banca do seu próprio bolso diversos trabalhos. “Sabe qual um dos melhores funcionários que uma empresa pode ter? A pessoa com deficiência. Pois, por falta de opção e por dedicação para provar seu valor, tendem a ser mais dedicados e bons no que fazem. O superdotado tem foco determinado e costuma ser bom no que faz. Todos buscarão o seu melhor com foco e determinação, mas é necessário haver educação singular”, finaliza.
Fabiano finaliza explicando a coerência sobre o que ele chama de destacamento.
“Isso não é uma separação e sim um destacamento, aqui em Portugal, se contratas um deficiente físico, não pagas os impostos trabalhistas, mas onde encontrá-los? Imagina uma escola, um instituto que trabalhe de forma direcionada e especial os deficientes? O empresário saberá onde encontrar. Quando você coloca uma pessoa especial em meio a pessoas comuns, elas podem sofrer bullying, eu por exemplo, me tornei um rebelde para me defender das ameaças, pois diziam que eu falava coisas que não faziam sentido. Questionar sobre o motivo do beija-flor bater as asas tão rápido era motivo de piada. Rebater o professor por não concordar com o seu método e indução de opinião, era um desaforo e suspensão. Eu tenho duas pessoas especiais na minha empresa, uma com problema físico e outro mental, são dedicados, pois valorizam a oportunidade, são bons, pois promovem todo o tempo para se aperfeiçoarem. Imagina contratar um jornalista que não tenha as pernas por exemplo, ele já fica sentado, não vai reclamar de trabalhar sentado e têm grandes chances de ser melhor que muito jornalista pelo tempo dedicado ao conhecimento. Mas onde eu encontro essas pessoas tão especiais que me trarão melhor retorno? Numa escola comum? Estão preparados? Me darão uma ficha completa deles? Essa escola se dedicou em fazer deles melhores? Com métodos direcionados com experiência para tratar dessas pessoas especiais? Por isso os países desenvolvidos têm escolas especiais, para fazer dessas pessoas especiais, se sentirem especiais. O que é melhor? Gostar de jogar de basquete mesmo não tendo utilidade nas pernas estudando em meio a jogadores que dão saltos altíssimos ou ver jogadores de basquete todos em suas cadeiras de rodas e buscar se destacar entre os com as mesmas condições? É uma questão de coerência e lógica. Temos que ver as estatísticas, avaliar o que fizeram os países que deram certo e se deram certo não deixando de avaliar também a cultura e personalidade do nosso povo.”


