
As movimentações recentes de Ciro Gomes indicam uma estratégia cada vez mais clara para as eleições de 2026: apostar na memória política como ferramenta de reconexão com o eleitorado cearense.
O movimento começou pelo retorno ao Partido da Social Democracia Brasileira e pela reaproximação com Tasso Jereissati, figura que há anos estava afastada do protagonismo político no estado. Mais do que uma aliança partidária, a aproximação resgata simbolicamente um ciclo político que marcou o Ceará nas décadas de 1990 e 2000.
Nesta semana, Ciro deu mais um sinal dessa estratégia ao marcar agenda no Conjunto Ceará, bairro historicamente associado ao início de sua ascensão política. Foi ali que o então prefeito de Fortaleza e, posteriormente, governador do Estado, consolidou parte importante de sua imagem pública.
Naquele período, obras de urbanização, asfaltamento de avenidas, equipamentos de saúde e segurança ajudaram a fortalecer a identificação entre o grupo político liderado por Ciro e parte significativa da população do bairro. O vínculo se tornou tão forte que chegou a surgir, ainda que simbolicamente, a proposta de mudar o nome do Conjunto Ceará para “Cirolândia”.
Além das obras, havia também o componente político-midiático. Grandes showmícios realizados por Ciro e Tasso reuniram multidões no bairro com apresentações de artistas populares da época, como Zezé Di Camargo & Luciano, Chitãozinho & Xororó e Leandro & Leonardo. O episódio ajuda a ilustrar o tamanho da força eleitoral construída naquele momento.
Ao voltar ao Conjunto Ceará em meio às articulações para 2026, Ciro tenta ativar justamente essa memória afetiva e política. A estratégia passa pela tentativa de reassociar sua imagem a um período de forte popularidade e protagonismo administrativo no estado.
Existe, porém, uma limitação evidente nessa aposta. Parte significativa do eleitorado atual não viveu politicamente os anos 1990. Para uma geração mais jovem, a memória do “Ciro governador” não possui o mesmo peso simbólico que ainda carrega entre eleitores mais antigos.
Nesse contexto, a nostalgia aparece não apenas como ferramenta de comunicação, mas também como tentativa de reconstrução de identidade política. Depois de disputar sucessivas eleições presidenciais e nacionalizar o discurso, Ciro volta a mirar o Ceará buscando recuperar capital político em um ambiente eleitoral mais regionalizado.
O desafio será transformar lembrança em voto. Porque, embora a memória política ainda exista, ela já não alcança o eleitorado de forma homogênea como no período em que Ciro consolidou sua hegemonia no estado.


