A decisão do governo do presidente Donald Trump de enquadrar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas entrou em vigor nesta sexta-feira (05/06), ampliando as tensões diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos. Anunciada no fim de maio, a medida é alvo de críticas do governo brasileiro, que vê riscos à soberania nacional e possíveis consequências para a economia do país.
O Palácio do Planalto argumenta que o combate ao crime organizado deve ocorrer por meio da cooperação internacional entre os países, respeitando a autonomia de cada Estado. Na avaliação do governo, a classificação adotada por Washington pode abrir espaço para interferências em assuntos internos sob a justificativa de ações antiterrorismo.
Além das implicações políticas e diplomáticas, o governo e analistas apontam possíveis reflexos econômicos. Entre os setores que podem ser afetados estão o turismo, os investimentos estrangeiros, o comércio exterior e o sistema financeiro, devido ao aumento da percepção de risco em relação ao país.

A iniciativa faz parte de uma estratégia mais ampla da administração Trump. Nos últimos meses, Washington também passou a classificar como terroristas organizações criminosas com atuação em países como México, Venezuela, Equador e Colômbia. Em março, a Casa Branca lançou a coalizão Escudo das Américas, apresentada como uma aliança voltada ao combate ao narcotráfico e à criminalidade transnacional.
Críticos da política norte-americana afirmam, porém, que o discurso de enfrentamento ao narcotráfico tem sido utilizado para ampliar a influência dos Estados Unidos na região e pressionar governos latino-americanos. Entre os exemplos citados estão ações direcionadas à Venezuela e ao México, classificadas por autoridades desses países como interferências em questões internas.
A nova crise diplomática ocorre em meio a atritos comerciais entre os dois países. Quatro dias após anunciar a classificação das facções brasileiras, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos recomendou a adoção de tarifas de 25% sobre produtos importados do Brasil, sob a alegação de práticas comerciais consideradas desleais.

O documento também faz críticas ao sistema brasileiro de pagamentos instantâneos Pix, argumentando que a ferramenta prejudicaria empresas norte-americanas do setor financeiro, como Visa, Mastercard e WhatsApp Pay. No dia seguinte, o governo Trump anunciou a intenção de aplicar tarifas adicionais entre 10% e 12,5% a produtos importados de 60 países, incluindo o Brasil. A justificativa apresentada foi a suposta insuficiência de medidas para combater a comercialização de produtos associados ao trabalho forçado.
O governo brasileiro contestou os argumentos utilizados por Washington e classificou as medidas como ações protecionistas unilaterais. O Ministério das Relações Exteriores informou que o país poderá recorrer aos mecanismos previstos na Lei da Reciprocidade Econômica, que autoriza a adoção de contramedidas comerciais diante de barreiras impostas por outros países ou blocos econômicos.
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