Um levantamento inédito da Confederação Nacional da Indústria (CNI) indica que 45% dos empresários do setor industrial brasileiro esperam aumento do endividamento bancário nos próximos três meses. O estudo aponta que as empresas devem recorrer com mais intensidade ao crédito para manter o fluxo de caixa e cobrir despesas operacionais.
A pesquisa associa essa tendência a um ambiente de juros ainda elevados, que continua pressionando o capital de giro das companhias. Para a analista de Políticas e Indústria da CNI, Maria Virginia Colusso, mesmo com a redução da taxa Selic, que é a taxa básica de juros, para 14,25% ao ano, o custo real do crédito permanece alto.
Segundo a especialista, o patamar atual da política monetária ainda é considerado restritivo. “Mesmo com um corte da Selic para 14,25% ao ano, o juro real ainda está em torno de 10% ao ano. Então, isso ainda é uma política monetária bastante restritiva”, afirmou.

Na avaliação da entidade, a necessidade de crédito está ligada à dificuldade das empresas em equilibrar o ciclo financeiro, especialmente no que diz respeito ao pagamento de fornecedores, manutenção de estoques e gestão do intervalo entre vendas e recebimentos. Para Maria, esse cenário revela uma pressão crescente sobre o capital de giro.
“Isso indica que essas empresas precisam de mais recursos para sustentar o intervalo entre vender e receber. O problema é que essa necessidade de crédito vem acompanhada de uma expectativa de ter que tomar esse crédito a um custo mais caro”, destaca.
Em relação às modalidades de crédito, 51% das empresas consultadas projetam aumento da demanda por financiamentos com contas a receber como garantia. A entidade atribui o movimento ao risco de inadimplência e atrasos nos pagamentos por parte dos clientes. Nesse segmento, 45% também esperam elevação dos juros.
Quando analisado o financiamento de estoques, 48% dos industriais indicam expectativa de maior necessidade de crédito nos próximos três meses e apenas 9% projetam redução. No mesmo recorte, 45% das empresas também acreditam que os juros dessas operações devem subir no período analisado.

No caso do financiamento de contas a pagar, 59% dos empresários afirmam que devem recorrer mais ao crédito para alongar prazos com fornecedores. Nesse grupo, 52% dos industriais também esperam aumento das taxas de juros nessas operações.
Para a analista da CNI, o avanço do endividamento e o encarecimento do crédito têm impacto direto na economia real, ao reduzir margens e limitar investimentos. “O endividamento mais elevado e o encarecimento do crédito afetam a economia por diferentes canais. Para as empresas, isso aumenta as despesas financeiras, comprime a rentabilidade, reduz a capacidade de investir, inovar, ampliar a produção e modernizar o parque industrial”, afirma.
Conforme o estudo, 64% dos industriais projetam queda na margem líquida dos negócios, indicador que mede a relação entre lucro e faturamento. Diante da pressão sobre custos, 51% das empresas pretendem aumentar preços nos próximos três meses. Outros 43% devem manter os valores atuais, enquanto apenas 7% planejam reduções, o que indica repasse parcial das despesas ao consumidor.
Na avaliação final da especialista, quando o repasse não é possível, o resultado tende a ser a compressão das margens e perda de competitividade. Por fim, a CNI alerta que a manutenção de juros elevados por período prolongado tende a reduzir o dinamismo da indústria, afetando emprego, renda e crescimento econômico.
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