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Marçal e o fantasma de Sílvio Santos

A entrada de Pablo Marçal na corrida presidencial tem um pouco de campanha, um pouco de provocação e bastante cálculo político. O empresário diz que Flávio Bolsonaro está “apanhando sozinho” e que decidiu entrar na disputa para ajudá-lo contra Lula e Renan Santos.

Mas há uma pergunta inevitável: Marçal está entrando para disputar a Presidência ou para marcar território na política?

A dúvida não é gratuita. A situação eleitoral do influenciador ainda está longe de ser simples.

Marçal foi alvo de diferentes ações na Justiça Eleitoral por fatos relacionados à campanha de 2024. 

Em um dos processos, uma condenação a oito anos de inelegibilidade foi revertida pelo TRE-SP. Em outros, ainda há decisões desfavoráveis e possibilidade de recurso ao TSE.

Ou seja: a candidatura foi apresentada, mas a batalha jurídica continua.

E é justamente aí que aparece um personagem de outra eleição.

Em 1989, na primeira eleição direta para presidente depois de quase três décadas, o Brasil tinha uma quantidade incomum de candidatos e uma disputa ainda aberta. A menos de um mês do primeiro turno, surgiu uma candidatura capaz de bagunçar completamente o jogo: Silvio Santos.

O dono do SBT entrou na disputa pelo nanico PMB, substituindo o candidato que havia desistido. O impacto foi imediato. Pesquisas chegaram a apontar Silvio com cerca de 30% das intenções de voto.

Só que Silvio Santos não chegou às urnas. O TSE indeferiu sua candidatura poucos dias antes da eleição, entre outros motivos, porque o registro do PMB havia perdido validade e porque a Corte considerou que ele se enquadrava em uma hipótese de inelegibilidade relacionada à sua ligação com uma empresa concessionária de serviço público.

A história não se repete. Mas às vezes ela rima.

Silvio Santos e Pablo Marçal pertencem a épocas completamente diferentes. Um construiu sua influência pela televisão; o outro, pelas redes sociais. Mas os dois casos ajudam a revelar uma mudança importante na política brasileira: cada vez mais, a fronteira entre comunicação, popularidade e disputa eleitoral fica menos nítida.

Em 1989, a televisão podia transformar um empresário em fenômeno eleitoral quase instantaneamente. Hoje, as redes sociais fazem isso em uma velocidade ainda maior. A diferença é que, agora, a candidatura de Marçal não surge de última hora, às vésperas da votação. Ela chega com antecedência, em uma eleição na qual audiência, engajamento e capacidade de mobilização já fazem parte da própria disputa política.

Por isso, talvez a comparação com Silvio Santos não esteja apenas na possibilidade de uma candidatura enfrentar obstáculos jurídicos. Está também na pergunta que as duas histórias deixam para a eleição: até onde a popularidade construída fora da política consegue se transformar em poder dentro dela?

E essa é uma questão que vai além de Marçal. Uma eleição não é feita apenas de candidatos, partidos e pesquisas. É feita também de audiência, redes, alianças, decisões judiciais e acontecimentos capazes de mudar o jogo em poucas semanas.

No fim, o caso Marçal pode ser menos importante pelo número de votos que sua candidatura terá e mais pelo que revela sobre a própria eleição. Em uma disputa cada vez mais atravessada pela comunicação digital, a campanha começa muito antes da urna. E, muitas vezes, a batalha pelo voto começa justamente na disputa por atenção.

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