
Durante a pandemia da Covid-19, todos fomos pegos de surpresa e a situação ainda não é fácil para a grande maioria da sociedade. Imagine, porém, como foi para os idosos enfrentar esse cenário caótico. Eles, que muitas vezes já são negligenciados naturalmente, se viram ainda mais sozinhos e desamparados sem poder contar com alguém por perto. Nesse período de isolamento social, por exemplo, o número de denúncias de violência contra o idoso cresceu 59%, chegando a cerca de 25 mil boletins de ocorrência. Os dados são do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos e foram obtidos via Lei de Acesso à Informação.
Com o intuito de abrigar cidadãos da terceira idade e lhes proporcionar descanso e uma vida de qualidade, existem as Instituições de Longa Permanência Para Idosos (ILPI). No Norte e Nordeste, entre tantas outras, a de maior expressão é o Lar Torres de Melo, em Fortaleza. A instituição abrange diferentes graus de dependência, que vão desde o indivíduo que leva sua vida normal até o idoso acamado que precisa de ajuda em suas necessidades básicas.
“Eu sou o caminho, a verdade e a vida, para chegar ao Pai tem que passar por dentro de mim. Todo santo dia eu me pego com Deus, eu gosto da palavra de Deus”. É dessa forma que João Matias, morador do Lar Torres de Melo há dez anos, inicia sua fala quando é questionado sobre sua trajetória de vida. Aos 80 anos, o senhor demonstra a fé característica de sua geração, que aprendeu a lidar com os obstáculos da vida e lutar para driblar cada um deles.
A alegria de seu João é contagiante e, apesar das dores da vida, não se deixa abater pelas circunstâncias. Ele relembra o passado quando trabalhava na capital para levar o sustento para sua família no interior de Senador Pompeu, a 272 km de Fortaleza, e fala como era bom viver sua mocidade em paz e com liberdade. “Quando eu era mais novo, eu gostava de um samba, de um forró. Coisa da mocidade. De qualquer maneira, hoje estamos curtindo na velhice. Gosto da paz”, declara expressando sua gratidão em receber os cuidados do Lar.

Lúcia Severo, gerente administrativo financeiro da instituição, revela os altos custos para manter o padrão de vida dos que ali vivem e acrescenta ainda que a burocracia para a liberação dos recursos dificulta a atuação do Lar. “Como que eu sustento 200 idosos esperando um recurso que não chega? Eu tô com agosto e setembro atrasados. Se eu gasto 30kg de proteína por dia e eu não tenho dinheiro, claro que eu vou diminuir a qualidade deste cardápio”, pontua.

Geriatras afirmam que para um idoso levar uma vida de qualidade é preciso uma vida ativa com a prática de exercícios, alimentação saudável e estímulo intelectual. Os cuidados vão muito além do físico e precisam também perpassar pelo mental, pelo sentimento, pois nessa altura da vida são muitos os que tiveram laços rompidos com a família e veem nas ILPI’s uma referência de vida para preencher essa lacuna.
O promotor Alexandre Alcântara, titular da 1ª Promotoria de Justiça de Defesa do Idoso e coordenador auxiliar do Centro de Apoio Operacional da Cidadania, do Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE), deixa uma reflexão para a sociedade acerca dessa fase da vida. “Temos que pensar como planejar o nosso envelhecimento. O envelhecimento não é da noite pro dia e a gente tem que entender que ele ocorre conforme o decurso da vida”, declara.
O núcleo ligado ao MPCE atua pautado no Estatuto do Idoso, sob a lei nº 10.741/2013, que garante os direitos do idoso acima de 60 anos de idade, em especial aqueles em situação de vulnerabilidade. Sob orientação do Conselho Nacional do MP, o trabalho das autoridades responsáveis tem como característica a garantia da execução das políticas públicas, a fiscalização das ILPI’s e abrigos. Anualmente, cerca de 25 instituições recebem visitas técnicas da Vigilância Sanitária, Corpo de Bombeiros e Conselho Municipal do direito com a pessoa idosa.
O promotor explica que no momento mais crítico da pandemia foram feitos controles semanais da situação dos idosos e, junto com as Secretarias de Saúde, obtiveram êxito nos baixos números de óbito por Covid nos abrigos. Inclusive, os idosos do Lar Torres de Melo foram prontamente assistidos, como relata Liduína Donato, gerente geral do Lar: “Fomos a primeira LPI a ser vacinada. Quando chegou a CoronaVac no dia 20 de janeiro, já estávamos pegando a primeira dose, todos os idosos e funcionários. 27 dias depois tomamos a segunda dose”.

As promotorias não pararam seus trabalhos na pandemia e se adaptaram para continuar presentes nas instituições dando o devido suporte. Em parceria com a Frente Nacional, realizaram lives envolvendo gestores dos abrigos e setores da sociedade civil. Com a ajuda do Núcleo de Apoio Técnico do Ministério Público (Natec), têm à sua disposição psicólogos e assistentes sociais, tudo isso para que se tenha um olhar multidisciplinar.
De acordo com o titular da pasta, uma proposta que previa a abertura de um abrigo a cada dois anos foi assinada em 2017, mas não foi efetivada. Caso a ação fosse concretizada, hoje seriam duas unidades e até 2030 o número aumentaria para sete equipamentos na capital cearense. “Hoje temos uma deficiência muito grande em termos de estrutura”, revela Alexandre.
Hoje, seu João lamenta a saudade de seus filhos e netos que não podem visitá-lo há mais de um ano em decorrência da pandemia, mas segue confiante de que tudo há de terminar logo. “Eu tô com fé que essa doença tá pra se acabar. Estamos pra se libertar porque já liberaram alunos, liberaram até jogo, tá mais perto”, afirma o idoso com esperança ao lado de seu radinho de pilha, que é o seu companheiro nesses dias tão atípicos.
Através do desabafo de Lúcia, da preocupação de Liduína, do acompanhamento de Alexandre e do relato de Seu João é perceptível como a questão vai muito além do que se vê. É preciso quebrar os preconceitos para com as pessoas idosas e parar de tratá-las como descartáveis. Cabe a cada um se colocar no lugar do outro e agir com empatia, pois uma hora todos haveremos de chegar nessa fase da vida.
“Quais os amigos que terei no meu envelhecimento? Qual a relação com a minha família? A qualidade dessas relações? Fica aqui uma reflexão. Não é só uma responsabilidade do Estado. É uma responsabilidade da família, da sociedade civil”, finaliza o promotor Alexandre trazendo questionamentos fundamentais para que uma sociedade se torne mais responsável e humana.



