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Barbie é mais do que você espera (Crítica)

Tendo consciência que o público não seria tão adepto a um projeto mais sério sobre a Barbie, o filme escrito e dirigido por Greta Gerwig (Lady Bird) vai além de uma história engraçada, usando a metalinguagem e a sátira para falar sobre temas importantes em nossa sociedade.

O filme começa nos mostrando o porquê da Barbie ser um grande ícone da cultura pop, expondo como ela foi uma grande divisora no mundo dos brinquedos femininos, fazendo com que as crianças não queiram ser apenas mães e donas de casa, mas que também podem ser o que quiserem. Contudo, o grande charme desta abertura vai para todo o uso da metalinguagem na “Barbieland”, onde mostram todos os personagens agindo como brinquedos, mas, principalmente, utilizando o cenário como algo genuinamente falso, assim como são os produtos. 

No maior estilo de Show de Truman, vemos a Barbie de Margot Robbie (Aves de Rapina) tomando consciência para algo além de sua vida de boneca, como até mesmo morrer. Com o decorrer do filme descobrimos que estes pensamentos são em decorrência da personagem da America Ferrera (Quatro Amigos e Um Jeans Viajante), servindo como parte da proposta do longa para mostrar como o público mudou o conceito do brinquedo.

A ideia da boneca Barbie também é algo extremamente comentado durante a narrativa. O roteiro de Gerwig e Noah Baumbach (Ruído Branco) escancaram uma verdade que muitos ainda não sabem, que é o fato da Barbie por muitos anos idealizar uma imagem para crianças que dificilmente elas serão, sejão fisicamente perfeitas ou até mesmo assumirem cargos que, infelizmente, é dominado por homens. 

A partir dessa percepção, é exposto outra realidade da nossa sociedade, o patriarcado. Mesmo não sendo meu lugar de fala, e não sofrendo com isso, o filme conseguiu mostrar como o mundo funciona, e é por meio da Barbie protagonista assustada como as mulheres não possuem voz e oportunidades que entra a genialidade de Gerwig. A cineasta aborda este assunto de uma maneira leve, mas, ao mesmo tempo, ácida, com um humor tragicômico, onde lhe faz pensar: “por que estou rindo? Isso é a realidade!”. 

A cineasta estadunidense não perdoa nem mesmo a Mattel, empresa que criou a Barbie, onde crítica como uma companhia deste tamanho e dona de um ícone feminio é comandada apenas por homens, que, assim como mostrado no longa, fingem estarem interessados em dar mais esperança e chance às mulheres contra o patriarcado. Além disso, ainda mostra como a empresa tenta vender de tudo em torno da boneca, ao ponto de criarem as piores versões da mesma.

O Ken de Ryan Gosling (Blade Runner 2049) também ajuda no desenvolvimento desta temática, uma vez que, enquanto a Barbie de Robbie está completamente assustada com a situação das mulheres no mundo real, o personagem do ator fica encantado com tudo o que vê, visto que, como é mostrado, a nossa sociedade está aí para agradar o ego masculino. 

Eu particularmente não esperava tanto dos números musicais, e como alguém que não é o maior fã do gênero musical, fiquei muito agradado com estes momentos. Tudo isso não só pela trilha sonora, que é contagiante ponto de querer escutá-la assim que voltar do cinema, mas também pelas coreografias e pela montagem, que encaixam bem na proposta do projeto.

 

É possível que algumas pessoas fiquem decepcionadas com a pouca utilização de alguns atores, já que o elenco do longa é recheado de estrelas. Contudo, como a maioria deles estão interpretando a mesma pessoa, isso corrobora muito com o que roteiro do longa debate, sobre o patriarcado e a misoginia.

Até então, o único detalhe que não curti muito em torno do projeto foi a reta final do seu terceiro ato, onde todo o conflito emocional da Barbie e do Ken não se encaixam muito bem, e por muitas vezes fica até estranho darem tanta atenção para o desfecho do personagem de Ryan Gosling. Além disso, a conversa final entre a Barbie de Margot Robbie e uma personagem surpresa ficou um pouco desencaixada, onde não consegui captar muito bem o que eles queriam dizer com tudo aquilo. Mas assistindo por uma segunda vez, é possível que esta minha visão mude. 

Por fim, Barbie corresponde a todas as expectativas que o público tem, onde vai além de um filme sobre a boneca mais famosa do mercado de brinquedos. O projeto tem muita personalidade, coragem e soube abordar temas delicados da nossa sociedade, no qual servirá muito bem a frases clichês, como “é um filme muito atual” e “tem uma grande crítica social”. Porém, sabemos que todo clichê é carregado com uma grande verdade, e este longa escancara várias delas em você.  

Nota: 9,5/10