A tuberculose provocou 259 mortes no Ceará em 2025, o maior número registrado desde 2015, segundo a Secretaria da Saúde do Estado (Sesa). Apesar de ter cura e tratamento gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a doença também atingiu recorde de diagnósticos no período, com 4.094 casos confirmados.
Os dados constam em boletim epidemiológico divulgado recentemente pela Sesa, que analisa a série histórica até 2025 e aponta tendência de crescimento da doença, causada pela bactéria Mycobacterium tuberculosis, conhecida como bacilo de Koch.
A alta na mortalidade é associada, entre outros fatores, aos impactos da pandemia de Covid-19. Em 2020, houve queda nos diagnósticos, reflexo da redução na procura por serviços de saúde. Nos anos seguintes, pacientes passaram a ser identificados em estágios mais avançados da doença.

“Nos últimos anos, quando passou a pandemia, os pacientes passaram a chegar ao hospital em situações mais graves, com comprometimento pulmonar extenso e desconforto respiratório importante — já apresentando sequelas da tuberculose —, o que aumenta muito a mortalidade”, explicou a infectologista Liliane Granjeiro, do Hospital São José, referência no tratamento de casos complexos em Fortaleza. A especialista também aponta a influência de comorbidades, como HIV/aids, e do envelhecimento populacional.
Conforme o Censo Demográfico de 2022, 14,7% da população cearense tem 60 anos ou mais. A estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é de que esse percentual alcance 40% até 2070, o que pode ampliar a incidência de doenças crônicas associadas ao risco de tuberculose, como a diabetes.
A Sesa destaca ainda que os óbitos estão relacionados ao diagnóstico tardio e à baixa adesão ao tratamento. Como medida de enfrentamento, o Estado investiu na ampliação da capacidade de testagem. Entre 2025 e 2026, o Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen-CE) passou por modernização, com expansão da testagem molecular rápida. Em Fortaleza, a capacidade diária subiu de 56 para 320 exames.
O boletim também registra aumento de diagnósticos realizados após o óbito, com média anual de 30 casos e pico de 60 em 2023. Segundo a infectologista, o estigma social associado à tuberculose, frequentemente relacionada à pobreza, pode levar pacientes a retardar a busca por atendimento.

No Ceará, os casos se concentram em populações vulneráveis, como pessoas privadas de liberdade, indivíduos vivendo com HIV/aids e população em situação de rua. Em resposta, a Sesa afirma ter intensificado a busca ativa de casos e a integração entre Vigilância e Atenção Primária.
Sintomas e tratamento
Entre os principais sintomas da tuberculose pulmonar estão tosse persistente, febre, perda de peso e calafrios. A orientação é que pessoas com tosse por mais de duas semanas procurem atendimento em unidades de saúde para investigação. A vacina BCG é indicada para prevenção de formas graves.
A adesão ao tratamento segue como um dos principais desafios. Entre 2015 e 2024, o Ceará registrou taxa média de cura de 60,7%, abaixo da meta de 85%. O tratamento dura, no mínimo, seis meses e exige continuidade mesmo após a melhora dos sintomas.
Dados do boletim indicam que, em média, 12,3% dos pacientes abandonam o tratamento antes do prazo recomendado. Dessa forma, a interrupção precoce contribui para a manutenção da cadeia de transmissão e pode favorecer o surgimento de bactérias resistentes aos medicamentos.
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